A nossa peregrinação a Santiago de Compostela foi diferente: não teve cajados, passaporte peregrino, carimbos das estadias e nem pés inchados. Chegamos lá próximo do meio dia, de carro.
Mas, já nos nossos primeiros passos, começamos a sentir o quão diferente era tudo aquilo. Claro: tinha a alegria contagiante do povo espanhol que sempre lota ruas, praças e rostos com sorrisos constantes. É impressionante como países tão próximos tem sangue tão distinto.
Basta cruzar a fronteira que some o peso que os portugueses mais tradicionais parecem carregar, diminui a faixa etária média da população, aumentam os barulhos, os bares, a vida. Nada contra Portugal – pessoalmente, virei um ardoroso fã de tudo que a “terrinha” tem a oferecer – desde paisagens até história, culinária, música, tradições e, obviamente, o próprio povo.
Mas a Espanha tem esse traço mais acentuado da alegria de viver – e isso é simplesmente inegável.
Santiago, talvez a cidade mais importante da orgulhosa Galícia, tem ainda atributos que a diferem do restante do país. Para começar, o idioma: o galego é uma espécie de mistura entre o português e o espanhol, onde facilmente se reconhece origens comuns de palavras e mesmo de sotaques. Por exemplo, na Espanha, Junho se escreve Juño – enquanto na Galícia é Xuño. Parece pouco – mas esse “x” que praticamente substitui o “j” em quase todas as palavras tem absolutamente tudo a ver com o chiado do sotaque português.
A paisagem também é outra. Enquanto a Andaluzia, no sul, é basicamente ocre, e o leste é dominado por desertos, a Galícia é de um verde marcante, que explode diante das nossas vistas em cada canto.
E, é claro, o tipo de turismo. Santiago tem MUITA história para contar – mas ela aglomera tipos diferentes de turistas. Têm os que vão pela história e cultura – como nós, por exemplo. Mas tem também a multidão de peregrinos fazendo o famoso caminho de Santiago – que, vale ressaltar, é forte ao ponto de ter dado origem ao símbolo máximo do pais vizinho, o Galo de Barcelos.
A peregrinação tem um objetivo comum: chegar até o local onde se encontram os restos de São Tiago, um dos apóstolos de Jesus, que descansa hoje na majestosa Catedral.
Mas apesar do cunho religioso, os peregrinos (ao menos os modernos) vão mais em busca de uma jornada de auto-conhecimento do que de pagamento de promessas.
Todos tem aparência semelhante: portam mochilas gigantescas que praticamente cobrem as costas, mancam, levam um ou dois cajados para ajudar na caminhada e tem um olhar meio perdido, solitário. A solidão talvez tenha sido o traço que mais nos tenha impressionado, aliás. Ao se lançar em uma jornada de centenas de quilômetros tendo apenas a própria mente como companheira, certamente deve-se refletir sobre toda a própria existência. E pensar sobre si mesmo e sobre a própria vida está longe de ser uma tarefa coletiva, cooperada. A multidão de peregrinos que enche as praças é, em realidade, uma multidão de indivíduos exaustos, que mesclam a sensação de missão cumprida a uma carga de emoções e visões sobre a vida que eles próprios desconheciam dias antes.
E uma das belezas de Santiago é essa: imaginar a profundidade dos pensamentos que estão a se libertar nas mentes daqueles que se lançaram em jornadas incomensuráveis com o único objetivo de saber quem realmente são. Lá, eles se acharam. Eles terminaram uma viagem ao próprio interior – uma viagem que certamente demandou tanta energia que, no momento em que se depararam com as conchas que simbolizam a chegada, já estavam com os olhos mais secos que a garganta.
A primeira coisa que nos perguntamos foi o porquê da concha como símbolo do caminho. Ocorre que, para provar que efetivamente fizeram o caminho, os primeiros peregrinos traziam, como lembrança, um tipo específico de concha encontrado em uma praia próxima de Santiago. tendo se transformado em símbolo de fé, a concha foi utilizada também para marcar os cavaleiros envolvidos na reconquista cristã da Península Ibérica. Segundo conta-se, aliás, o próprio São Tiago teria aparecido montando um cavalo branco marcado pela concha na Batalha de Clavijo, em 845, lutando ao lado dos seus correligionários. Por este motivo, o santo também é retratado como cavaleiro (em uma discrepante diferença do próprio sentido original de sua pregação), portando o sanguinário nome de Santiago Matamoros (ou São Tiago Mata-Mouros). A sua lenda, no entanto, é bem mais antiga, indo próxima aos tempos em que o próprio tempo começou…
Segundo a lenda, São Tiago, apóstolo de Jesus, foi à Península Ibérica para catequizar o povo Celta, que dominava a região. Ele acabou sendo capturado e, no ano de 44, foi executado em Jerusalém. Seu corpo, no entanto, foi levado à região da Galícia e abandonado por volta do século III, em plena perseguição religiosa romana.
No ano de 814, um heremita chamado Pelayo avistou luzes estranhas guiando-o para uma gruta – onde ele encontrou os restos mortais de São Tiago. Reconhecendo o achado como um milagre, o Bispo Theodemir de Iria mandou uma mensagem ao rei austríaco Alfonso II. Este imediatamente mandou erguer uma capela no local e foi, anos depois, o primeiro peregrino a percorrer o que seria a primeira rota de Santiago. A capela cresceu e virou uma igreja, construída em estilo pré-românico, no ano de 899.
Com a invasão árabe, ela acabou sendo totalmente destruída, tendo os seus sinos transportados para mesquitas em outras regiões da península.
A catedral atual começou a ser construída no ano de 1075 sob o comando do Rei Afonso II de Castela, tendo a sua última pedra sido colocada em 1122.
A Catedral tem o seu interior em estilo românico, ainda praticamente intocado e nítido pelos arcos dos corredores e pela altura do seu pé direito. Em cada canto, capelas diferentes preenchem a nave com imagens religiosas recontando a história de São Tiago e de outros santos, todos homenageados com velas permanentemente acesas.
Uma imagem fica próxima à entrada – e, segundo a lenda, quem passar a mão nela terá sorte na vida. Séculos de tradição foram responsáveis por afundar a tez da imagem com marcas de mãos de religiosos, de peregrinos e de turistas sem nada a perder.
No centro da Catedral, uma pequena escada leva a uma espécie de subsolo. Lá, separado por um grosso vidro de proteção e de barras, está o túmulo de um dos primeiros santos da cristandade – sendo sempre velado por um público fiel à religião ou à tradição.
Existe ainda uma capela específica para peregrinos: apenas eles podem entrar e rezar, sendo que até mesmo a fotografia é proibida. É curioso encontrar uma única e pequenina área reservada para o “sagrado” dentro de uma imensa catedral.
Do lado de fora, o cenário relembra onde estamos: ruas estreitas com calçamento de pedra, comum por toda a Espanha, cedem espaço para praças largas, ventiladas e alegres, para dizer o mínimo.
A própria catedral se modifica, abandonando o estilo românico e cedendo espaço a séculos de reformas que a transformou em algo diferente, chegando próximo do barroco.
A fé parece não se incomodar com o sem número de bares que lotam os seus arredores, produzindo sorrisos alcoólicos que exibem blasfêmias em cada dente.
Em cada esquina, na medida em que a hora ia avançando e o sol se despedindo, grupos de músicos em trajes típicos faziam apresentações públicas. Violinistas solos, bandas e gaitas de fole, herança dos celtas que primeiro povoaram a Galícia, enchiam o ar de música e de alegria.
Tudo isso no mesmo lugar.
E, com esses sons em mente, dormimos em um pequeno hotel do século XVIII no centro da cidade, todo feito de pedra e nos fazendo viajar, mais uma vez, no tempo.
No dia seguinte, essa nossa escapada de uma semana chegava ao fim. Entramos no carro, rumamos de volta a Portugal, jantamos um bacalhau como poucos perto de Ílhavo (Bacalhau do Batista) e pegamos o vôo para o Brasil, de onde termino de escrever este último post.


















QUAL O MAIOR SEGREDO DO CAMINHO
Por: EDUARDO OLIVEIRA em Agosto 8, 2008
às 11:59 pm
Oi, Eduardo!
Não fizemos o caminho de Santiago – mas pudemos sentir um pouco os ares de quem fez, por assim dizer. Sendo sincero, acho que cada peregrino caminha para desvendar respostas para os seus próprios segredos. Não existe nenhum pote de ouro na chegada, nenhuma grande descoberta coletiva. Existem viagens essencialmente solitárias, densas, profundas – onde cada viajante anda quilômetros sem sair da própria cabeça. É inevitável, portanto, que se chegue a pelo menos uma conclusão fabulosa sobre si mesmo e sobre a vida.
E, basicamente, o que vimos lá foram os peregrinos com ares de quem estava digerindo essas conclusões.
Entende?
Abs,
Ricardo.
Por: ricardoalmeida em Agosto 11, 2008
às 2:49 pm