Diz a lenda que, lá pelos idos do século XII ou XIII, um camponês fez uma promessa em prol do seu irmão, que estava extremamente adoecido: se a saúde voltasse, ele iria caminhando até Santiago de Compostela prestar a sua homenagem e agradecer ao que consideraria um milagre.
Logo em seguida, o seu irmão se curou e ele logo se pôs na estrada. No caminho para Santiago, ele parou na pequena vila de Barcelos, ao norte de Portugal e próximo à fronteira galega.
Precisava apenas descansar e retomar o fôlego para a caminhada.
Lá, no entanto, uma aldeã se tomou de amores por ele e fez de tudo para que ele abandonasse a promessa e ficasse lá com ela. O camponês, por sua vez, manteve-se fiel ao seu propósito e, focado, não quis nenhum tipo de conversa com a moça.
Colérica, ela resolveu se vingar: roubou um conjunto de talheres e louças nobres e escondeu na sacola do camponês, denunciando-o em seguida. Pego, ele foi a julgamento e imediatamente condenado à forca – apesar das suas juras de inocência. E, em um ato de desespero, implorou uma audiência com o rei.
Pedido concedido, ele adentrou o salão real no castelo de Barcelos, onde o rei jantava com os nobres da região. Tendo os pedidos de clemência negados, o camponês disse que, para provar a sua inocência, na hora do enforcamento, o galo assado que descansava ao centro da mesa de jantar se levantaria e se poria a cantar.
Naturalmente, as gargalhadas cortaram o ambiente e o camponês foi levado diretamente à forca – até que, de repente, o galo efetivamente levantou-se e começou a cantar!
Com isso, na última hora, o camponês foi salvo e pode continuar a sua peregrinação: chegou a Santiago prestou a sua homenagem e regressou à sua terra natal.
Anos depois, ele voltou a Barcelos e mandou erguer um cruzeiro em homenagem ao milagre que o salvou da forca.
Pois bem: verdadeira ou não, esta é a lenda do Galo de Barcelos, que acabou virando símbolo máximo de Portugal. E toda ela pode ser testemunhada no centro histórico da cidade.
Entra-se em Barcelos por uma ponte medieval – a mesma que o camponês cruzou. Pouco restam das suas muralhas – mas o castelo e o salão de jantar onde o galo cantou, mesmo que em ruínas, continuam lá. Do lado de fora do salão, uma pintura em azulejo retrata a cidade no século XIV – deixando claro que pouco foi alterado até os dias de hoje.
Túmulos românicos e símbolos religiosos espalham-se como achados arqueológicos – todos cedendo espaço ao cruzeiro feito sob o comando do camponês. Nele, entalhado em pedra e resistente ao tempo, toda a sua história está contada.
Olhando para o horizonte, campos cultivados são cortados por um rio sinuoso e brilhante sob um céu irremediavelmente azul. E, aos lados, nos muros, gigantescas setas amarelas apontam a direção que quase todos os visitantes de Barcelos pretendem seguir: rumo a Santiago de Compostela.









