Historicamente, o Porto é uma cidade que em muito se parece com Salvador. Foi berço de Portugal – da mesma forma que a capital baiana; por anos, assumiu o papel de motor da economia local; foi palco de revoltas e revoluções; foi deixada de lado pelos antigos reis, que transferiram a capital para Lisboa (tal qual o Marques de Pombal fez no Brasil, transferindo a sede de Salvador para o Rio nos idos do século XVIII).
E, da mesma forma que em Salvador, o Porto é uma cidade regida por uma estranha mistura de história, cores que saltam aos olhos, uma confusão urbana difícil de se entender e uma beleza natural sem precedentes. Como já conhecíamos a cidade, tomamos um barco na Ribeira e passamos uma hora passeando pelo Douro. Era verão, o sol estava a pino e a sensação de navegar lentamente por um rio margeado por centros urbanos tão intensos era fora do comum. Parecia que havíamos entrado em um outro ritmo, em câmera lenta enquanto barulhos, zumbidos cores desfilavam pelos nossos olhos.
E, enquanto nos afastávamos da região da Ribeira, os olhos acabaram se fixando nos únicos pontos que pareciam ter o mesmo ritmo que nós: os antigo e gigantescos armazéns de vinho. Velhos, com portas enferrujadas e aspecto abandonado, eles eram como monumentos à nostalgia. Pareciam querer ser discretos – mas a grandeza dava os seus sinais de vida sempre que uma ou outra pessoa caminhava ao seu lado, dando-nos a noção da proporcionalidade entre o tempo e o homem.
Mais para a frente, em direção ao encontro entre o Douro e o Atlântico, pequenos barcos utilizados no transporte de vinho descansavam na margem ocre – de onde pareciam não ter saído a séculos.
No alto de uma colina, algumas casas se isolavam em meio a um verde destoante. Lindas casas, dotadas de uma inequívoca pompa e de uma estrutura feita para se descansar do cotidiano turbulento.
Na outra margem, todavia, essa mesma pompa não se podia encontrar: casinhas mais pobres e com a mesma idade aparente dos armazéns guardavam velhinhas que simplesmente observavam a manhã virar tarde e a tarde virar noite.
Em meio a essas casinhas, três delas enfileiravam-se, exibindo a bandeira portuguesa nas suas janelas como que dizendo que dentro daquelas paredes abandonadas ainda vivia uma identidade.
O barco deu meia volta, já quando o mar estava à vista. Rumamos à Ribeira, onde desembarcamos e tomamos o rumo de volta à estação de comboios – não sem antes perambular pelas ruas sinuosas dessa que é uma das mais belas e curiosas cidades que já visitamos.






