Medina significa centro urbano – é o lugar em que se vivia e em que ainda se vive em muitas das cidades árabes. Na medina de Fés, a maior do mundo, cerca de 500 mil pessoas vivem, trabalham, rezam e vão à escola – tudo isso dentro dos seus 17 quilômetros de muralhas. Pouco, dada a quantidade de pessoas.
Mas, antes de entrar na medina, nosso guia (que contratamos logo pela manhã, no próprio hotel) nos levou para conhecer os arredores: fomos ao bairro judeu e a uma fábrica de cerâmica. Tudo era diferente, exótico. As burcas, as pessoas, a confusão do trânsito, o idioma.
O primeiro real contato que tivemos com o “turismo varejista” marroquino foi na fábrica de cerâmica. É claro que o intuito deles é vender para os turistas – mas, para tanto, eles explicam e mostram cada etapa do processo de fabricação dos seus produtos. Se fosse uma fábrica convencional, industrializada, o interesse gerado seria mínimo – mas tudo era artesanal lá, desde os desenhos até a finalização das panelas tagines, das mesas, das fontes. Uma mais maravilhosa do que a outra, aliás. Estávamos já encantados quando partimos rumo a uma das portas do palácio real.
No caminho, uma vista sensacional da Medina: estávamos do alto olhando para um centro urbano que parecia ser absurdamente compacto, espremido – mas funcional. A ansiedade por entrar nela crescia a cada minuto.
No palácio real, portas de ouro e bronze com detalhes microscópicos em seus ornamentos brilhavam os olhos. Descobrimos depois que parte dos detalhes, de tão minuciosos, tinham sido feitos com agulhas marteladas suavemente no metal. Quase perdemos a câmera neste momento: descobrimos também que tirar fotos de prédios reais era uma ofensa quando um policial veio bradando – em árabe – o que parecia ser uma tempestade de insultos e questionamentos. Por fim, nosso guia acabou convencendo-no de que não éramos terroristas e de que estávamos apenas desavisados, pedindo desculpas. A foto, no entanto, permaneceu. Ainda bem.
Dali, entramos na Medina. De repente, estávamos em um labirinto de quilômetros de cumprimento, feito de ruas estreitas, abarrotadas de gente e margeado por pequenos balcões de lojas. Eventualmente, gritos eram ouvidos – em árabe, claro: eram avisos de que o “taxi da Medina” – mulas ou jegues – estavam passando. E, entre pessoas, animais, frutas e um permanente cheiro de especiarias exóticas, nos encontramos em um mundo completamente diferente de tudo. De quando em quando, parávamos em alguma loja, entendíamos como determinado produto era feito, comprávamos algo. E voltávamos para o labirinto.
É impossível dizer o que era mais chocante: subir escadas mais apertadas do que as ruas beges e se ver em salas gigantescas, inteiramente ornamentadas nos mínimos detalhes e cobertas de pratos de ouro, bronze, prata ou cobre ou voltar para as ruas, em meio a mulheres de burca, a homens sem dente e à sensação de estar em um lugar que devia ser exatamente igual a mil anos atrás.
Em um dos lugares que entramos, entregaram-nos um curioso ramo de hortelã. “Para esconder o cheiro”, disse o guia. Subimos alguns lances de escada e, de repente, estávamos em um ambiente completamente aberto, onde o solo era feito de tanques que continham líquidos das mais variadas cores e, dentro deles, homens que pareciam dançar por sobre couros imersos. Daquele ambiente colorido saíam as roupas marroquinas, 100% naturais e fabricadas da mesma forma que no passado pré-industrialização.
O processo de fabricação era curioso. Primeiro, o couro era imerso em um tanque repleto de sucos cítricos, par remover os pelos. Em seguida, em tanques com – pasmem – dejetos de pombo. Por conterem alguns ácidos específicos, era aquela pasta que amaciava o couro. Em seguida, eles eram pisados nos tanques coloridos – sendo as cores extraídas de plantas, flores e assim por diante. Dava para ver todo o processo acontecendo, para sentir o cheiro de pele virando roupa, para deixar os olhos brilharem com as forças das cores.
Depois, mais ruas. Não podíamos entrar nas mesquitas – isso era território sagrado para os muçulmanos, que, ao menos ali, eram muito pouco tolerantes a turistas. Mas conseguimos ver de fora e tirar fotos. Parece estranho aos olhos de hoje, que costumam confundir o islã com o controle rígido da informação e com a censura – mas dentro daquela medina estava a primeira universidade do mundo. Um complexo imenso composto de incontáveis salas de aula, mesquita e dormitórios para os alunos em uma espécie de complexo multifuncional como os mais modernos que vemos hoje. A diferença é que, como quase tudo ali, ele tinha mais de 1000 anos.
E, enquanto espremíamos os olhos pela porta da universidade, ouvimos um som estarrecedor: era a convocação, feita em auto-falantes espalhados pela medina, para que todos fossem rezar. Tocava cinco vezes por dia e, a cada vez, as lojas esvaziavam-se, as vendas cessavam e, por poucos minutos, o tumulto parecia evaporar e dar lugar à oração.
Mas logo tudo voltava ao normal e os auto-falantes eram substituídos pelas vozes que negociavam compra e venda de bens, que falavam sobre a vida alheia, que teciam a história de algo que parecia eterno.
Em meio às vozes e às esquinas, portas de cedro trabalhadas abriam caminhos para bancos, mais mesquitas, museus de armas.
O único problema da medina era o excesso de informação e de contraste que esmurra os olhos do turista convencional, arrancando-o, subitamente, de tudo que ele costumava entender como mundo e lançando-o em uma reliadade jamais imaginada. Concluí ali que era fundamental visitar uma medina pelo menos duas vezes: uma para entendê-la e digerí-la, outra para conseguir isolar os seus ângulos e fotografá-la com a calma necessária.
Infelizmente, o nosso tempo era menor que a nossa necessidade, e tivemos que nos contentar em fazer tudo simultaneamente.
Saímos com a sensação de ter passado uma ou duas semanas naquele local, comprimidas em 4 horas.
Conhecer a medina de Fés foi das experiências mais sensacionais que já tivemos.
De lá, fizemos o nosso caminho de volta para Tanger. Por conta do mau tempo, atravessamos para outro porto espanhol – Algeciras -, rumamos para Tarifa, pegamos o nosso carro e partimos de volta a Portugal.
Estava terminando uma das viagens mais sensacionais que já fizemos – uma viagem intensa, por três países que, um dia, foram uma única cultura e um único povo. Por três países que, somados alguns séculos e muitos acasos, se distanciaram, multiplicaram as suas identidades e acordaram o seu passado comum como apenas um daqueles momentos em que o mundo como o conhecemos começou a tomar forma.
No caminho de volta, cada momento dessa viagem voltava aos nossos pensamentos. Da Espanha, conseguimos entender melhor sobre como se pode viver o presente com intensidade. Do Marrocos, a força incomparável do Tempo que, quando quer, consegue efetivamente ficar parado, ignorando todas as leis do universo e transformando o passado em um eterno presente. E, finalmente, Portugal, berço da cultura brasileira. Para nós, está claro que conhecer Portugal, suas contradições, suas cores felizes e seus ares nostálgicos é fundamental para qualquer brasileiro que queira se conhecer de verdade.
E, no final das contas, o que era para ser uma viagem normal de duas semanas se transformou em uma das mais poderosas viagens pelo tempo, pela história e pela vida como um todo.
Pena que acabou!




















Opa, sei que não tem muito haver com sua matéria mais como sei que seu blog é sobre viagens, gostaria que me respondesse uma coisa, estou pensando em viajar para a Disney com a empressa Stella Barros, ouvi varias coisas positivas sobre a empresa e gostaria de saber se você tem algo a falar, se tiver me manda um e-mail, obrigado!
Por: Paulo travel em Junho 4, 2008
às 5:59 pm
Adorei o seu blog e as fotos, estive este mês em Marrocos e adorei o país e tenciono voltar.
Beijinhus de Portugal
Tigresa
Por: Tigresa em Junho 27, 2008
às 6:27 pm