Publicado por: ricardoalmeida | Janeiro 6, 2008

A caminho do Marrocos

Segundo o candombé, 2008 será regido por Ogum, Orixá das guerras. Usamos as suas cores na virada do ano – branco e azul – mas nenhuma homenagem poderia ser maior do que a aventura para a qual partimos no primeiro dia do ano.

Tão logo acordamos, arrumamos as nossas coisas e rumamos para Tarifa, porto no extremo sul da Espanha. Deixamos o nosso carro alugado estacionado por lá e compramos duas passagens para Tenger, um dos mais importantes portos marroquinos. O plano era ir a Fés, conhecer e vivenciar a maior e mais antiga medina do mundo árabe, e voltar para a Espanha dois dias depois, seguindo direto para Portugal e para o nosso vôo de volta ao Brasil.

Tarifa, Espanha

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Culturalmente, conhecer Fés nesta viagem significaria fechar tudo o que vimos sobre Portugal – afinal, a região ibérica esteve, ao menos parcialmente, mais tempo sob controle muçulmano do que cristão – mesmo se considerarmos os dias de hoje.

Além disso, a curiosidade nos empurrava para o país – conhecer as origens de todos os vestígios que a civilização árabe deixou para trás quando abandonou a península se fazia fundamental.

E, claro, existia a própria curiosidade de se conhecer uma civilização em nada parecida com a nossa.

Pois bem… disso, realmente, não pudemos reclamar.

Ao descer no porto de Tanger, nosso primeiro choque: entramos em um taxi – daqueles caindo aos pedaços – rumo ao aeroporto da cidade, onde o carro que alugamos deveria estar à nossa espera. O taxista, de vestimentas árabes e falando um espanhol arranhado, logo colocou uma fita cassete tocando uma música marroquina no mínimo exótica aos nossos ouvidos. E, logo na saída do porto, já pudems ter um gstinho do Marrocos: ele subiu uma espécie de uma colina, em algo que parecia ser uma rua com um trânsito que misturava outros carros, pedestres, mulas e muita, muita gente. Mulheres de burca nos olhando estranho, diálogos esparrando na janela entreaberta do taxi como se fossem brigas, discussões. Cruzamos Tanger assim até chegarmos ao aeroporto. Em minha cabeça, a única coisa que se passava àquela altura era como eu conseguiria dirigir em meio aquele caos.

Tanger, Marrocos

No aeroporto, a primeira surpresa: a Hertz, de quem havíamos alugado o carro, só operava no período da manhã – e já passava das 14. Não tínhamos muita alternativa a não ser alugar o carro de uma companhia local, cujo vendedor estava pronto a nos atender. Nem discutimos muito – aceitamos a oferta e fomos ver o veículo. Bom…. era meio velho, para dizer o mínimo. A quilometragem estava bastante rodada, tinha uma ou outra batida e o rádio não funcionava direito. Mas, já que já estávamos ali, o melhor que poderíamos fazer era seguir em frente.

Ele nos indicou o caminho para Fés, instruindo-nos a pegar a auto-estrada até uma cidade chamada Kenitra e, depois, pegar uma estrada local até a cidade.

A auto-estrada em questão era, de fato, um tapete. E eu realmente estava a me interrogar sobre o motivo que apenas eu passava dos 120 km/h quando, de repente, um policial me mandou encostar. Ocorre que as estradas marroquinas são extremamente bem patrulhadas e, mesmo após descobrir que éramos brasileiros (o que funciona como uma espécie de cartão de visita muito bem aceito em lugares mais exóticos), o policial nos multou em 400 Dirhams – ou cerca de 40 Euros.

Multa

Lição aprendida, seguimos aos 120 km/h – ao menos até desviarmos para a estrada local.

A partir deste ponto, quem guiou o carro foi a tensão.

Estávamos no pôr-do-sol, e a perspectiva de chegar a Fés à noite não era das mais agradáveis. E, para piorar, a estrada era estreita, com eventuais pontos de trânsito e cortando umas pequenas vilas absolutamente tenebrosas – daquelas que pareciam ter sido bombardeadas em alguma guerra passada. Se não soubéssemos onde estávamos, certamente acreditaríamos ter caído no meio do Iraque pós-guerra!

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E as vilas iam se sucedendo – cada uma trazendo mais tensão e nervosismo.

A noite ia chegando.

A cada curva, a possibilidade de um cicilsta desavisado estar no caminho ou de carros vindo na contramão.

A cidade parecia se afastar. O tempo passava tão devagar que, em certo momento, pedi a Ana Lia que me dissesse as horas, pois o relógio do carro parecia estar empacado nas 18:11. Infelizmente, ele não etava: ainda eram 18:11.

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Conseguimos chegar a Fés por volta das 19:30, já em plena noite. Para chegar ao nosso hotel – um Ibis – paramos em alguns postos e perguntamos para pessoas diferentes. Ao perguntar para mulheres, estas apenas olhavam, mudas, para os maridos – que nos respondiam. Mulheres casadas não podem falar com ninguém lá.

O idioma, que do português tinha mudado para o espanhol há apenas dois dias, agora virou o francês. Não e o idioma oficial do Marrocos – mas era o que todos sabiam falar, dada a recência da independência do país que, até 1956, era um protetorado francês.

Até que, por volta das 20:30, avistamos a placa mágica do Ibis. Àquela altura, ele parecia ser um daqueles hotéis 6 estrelas que ouvimos falar. Era algo conhecido, onde a sensação de segurança voltava.

Al�vio

Alvio

Ainda estávamos sob o impacto da verdadeira jornada que fizemos até lá e um pouco apreensivo pelo que veríamos de fato na cidade. Mas, graças aos céus, todas as expectativas foram superadas no dia seguinte, quando conhecemos a maravilhosa medina de Fés – um dos lugares mais espetaculares que já vimos na vida.


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