Publicado por: ricardoalmeida | Dezembro 30, 2007

Lisboa

Chegamos em Lisboa no início da tarde. Com tantas pequenas aldeias e paisagens bucólicas que passamos no caminho, entrar em uma cidade realmente grande nos chocou um pouco – mas a beleza da capital portuguesa logo encheu os olhos.

Diz a lenda que Lisboa foi fundada por Ulísses, há eras atrás. Lenda ou não, o fato é que, pela sua localização privilegiada em relação ao velho mundo e à posição estratégica em uma baía com diversos pontos de defesa, a cidade logo se tornou um dos principais centros comerciais do planeta.

Foi um importantíssimo porto mouro, quando os árabes dominaram a península ibérica, frequentado por mercadores italianos, judeus, por bárbaros e, claro, pelos próprios árabes. E, no topo da colina mais alta, estes construíram um forte que conseguia ver toda a cidade e defendê-la contra ataques dos cristãos ou de qualquer outro povo.

Estamos agora no século XII. Afonso Henrique havia acabado de conquistar Guimarães e de fundar o reino português, gerido do atual norte do país. É claro que, até por uma questão de sobrevivência, chegar a Lisboa era fundamental.

As tentativas logo se iniciaram – mas a força dos árabes era tamanha que Dom Afonso levou 3 tentativas para, finalmente, conseguir romper os muros da cidade e dominar o castelo. Para tanto, ele contou ainda com apoio dos mais diversos povos – destacando os ingleses, com os quais iniciou uma aliança que dura até os dias de hoje. A promessa para os aliados: garatia de saque livre à cidade tão logo esta fosse dominada.

E, finalmente, ela o foi. Os árabes foram expulsos da metrópole – mas esta continuou sendo gerenciada de forma a impulsionar ainda mais o comércio.

Dom Afonso aproveitou a força do castelo árabe que tanto o desafiou e, sobre ele, construiu um ainda maior, com 4 novas torres e muralhas reforçadas. Hoje, ele é conhecido como o Castelo de São Jorge – que foi por onde iniciamos a nossa visita à cidade.

2173909438_ea76eab54b.jpg

O castelo está, de fato, em ruínas. Mas a carga histórica é tamanha, mesclando um forte medieval com traços nitidamente árabes (como o formato das janelas das torres originais), a um conjunto belíssimos de casas coloridas e perfeitamente preservadas e a uma vista impagável, que o sangue chega a correr mais rápido.

2173911440_bfe515bb7d.jpg

Ficamos um tempo lá, caminhando pelas muralhas, pelo chão e imaginando a vida na cidade que à época, era o motor principal da Europa. Aliás, para se ter idéia, quando Paris e Londres contavam com algo como 10 mil habitantes, Lisboa tinha 100.000 cidadãos. Era a Roma da Roma antiga, a Nova York de hoje.

De repente, surge pelas paredes do castelo um violão, ecoando alto pela tarde fria de céu claro. Chegamos perto e vimos um violonista tocando só músicas que variavam de Villa-Lobos a Zé Ramalho. Uma trilha sonora impecável.

2173118935_2329c266dc.jpg

2173911334_349611e4e9.jpg

De lá do castelo, voltamos caminhando pela Sé velha, passando pelo lugar onde os muros árabes ficavam até chegar ao Paço, já na beira do Tejo. De lá, portões estonteantes davam as boas vindas aos visitantes, chamando a todos para conhecer o que restava da opulência do que antes era o centro do mundo.

2173908030_ff33c06aba.jpg

Torre de Belém

Detalhe da Torre de Belém

Ocorre que, séculos depois, Portugal acabou sendo anexado ao reino espanhol por conta de uma crise dinástica que deu ao rei espanhol o controle do país. Além de fanaticamente católica e ultraconservadora, a Espanha tratou Portugal como uma colônia.

2173912132_edc8dd15f7.jpg

Agora, estamos no século XVI. O Brasil já havia sido descoberto, sucedendo uma passagem para as Índias e colônias africanas. Mas o governo espanhol foi de tal forma desastroso para o país que Portugal entrou em uma fase de extremo declínio. A implantação da inquisição usurpou fortunas dos mercadores judeus, deixando os demais comerciantes em tal pânico que eles logo deixaram a cidade. E, além das perseguições religiosas e de surtos de peste, outros pontos no globo começaram a crescer e a florescer.

Mesmo depois que os Bragança, originais da região rural do Porto (e com uma rivalidade histórica da Lisboa mercantil), o reino nunca mais conseguiu voltar a ser o que era. Ficou sujo, pobre. A tristeza de uma fase tão acentuada de declínio ficou, de certa forma, culturalmente impressa no português – e talvez daí venha o ar de nostalgia tão presente por todo o país. Mas, ainda assim, entre o belo e o decadente, Lisboa tem a sua história preservada em pontos que vão desde o Castelo e as igrejas até os tantos fortes, a maravilhosa Torre de Belém, erguida no século XVI como ponto de defesa e o moderno monumento ao descobrimento – erguido no ponto em que as naus deixaram Portugal rumo ao novo mundo, abrindo um novo capítulo na história da humanidade.

Circulamos por todos esses pontos, pelo Mosteiro de São Jeronimus, jantamos nas Docas e ainda esticamos a Caxias, Estoril, Cascais. De quando em quando, olhando as casas que inspiraram a arquitetura brasileira, as águas brilhantes do Tejo, o Atlântico convidando a todos aos mares.

2173912296_04333a9d56.jpg

Lisboa foi, sem dúvidas, uma das cidades mais bonitas que já conheci – e estar lá é, acredito, fundamental para qualquer brasileiro que queira conhecer melhor as suas próprias origens.

2173124113_6256aed3e0.jpg


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias