Publicado por: ricardoalmeida | Dezembro 27, 2007

Coimbra, cidade dos reis

A história de Coimbra remonta aos antigos romanos, quando da sua ocupação da Península Ibérica. Depois, aos hispânicos, passando para as mãos dos árabes nas invasões mouras. No ano de 878, as primeiras tentativas de reconquista começaram – uma época em que toda a região pertenceria à Espanha, já que o reino de Portugal nunca fora constituído. Finalmente, em 1064, os mouros foram expulsos e Coimbra renasceu como a cidade mais importante ao sul do Douro, capital de um dos maiores condados da região.

Foi na segurança das suas muralhas que o Conde Henrique e D. Teresa, vassalos dos espanhóis, escolheram viver. Foi também lá que nasceu o filho da casal, Afonso Henrique, que mais tarde viria a ser o primeiro rei de Portugal.

E é logo do lado de fora das antigas muralhas da cidade, na Igreja da Santa Cruz, que Dom Afonso Henrique – ou Dom Afonso I – descansa em seu túmulo. À sua frente, o túmulo do seu filho (e segundo rei português), Dom Sancho I. É curioso imaginar como os laços familiares entre os dois foram fortes ao ponto de escolherem descansar juntos – principalmente levando em conta que a declaração de Portugal como reino independente foi fruto de uma briga entre D. Afonso e a sua mãe, Dona Teresa, depois da morte do Conde Henrique.

Igreja de Santa Cruz

Túmulo de D. Afonso Henrique

De qualquer forma, Coimbra é, assim, pedra fundamental do nascimento de Portugal e do sentimento de unidade cultural do povo.

Porta de Almedina

É possível imaginar os antigos reis cavalgando pelas ruas estreitas, passando pelas portas da muralha e em frente à Sé Antiga – uma magnífica catedral do século XII – que, de tão intacta na sua planta original, chega a destoar dos prédios ao redor. Dá para sentir o cheiro da lenha aquecendo os casarios antigos, os estalos do fogo se misturando ao som das pisadas de suas cavalarias e de seus habitantes percorrendo a cidade, lembrando-se do pânico da época dos mouros e do relativo sentimento de segurança de um reino recém-formado. Tudo isso ao som de cantos gregorianos que ecoam pelas igrejas, marcando a presença da Santa Sé como juiza suprema de tudo e de todos em tempos tão escuros quanto as suas muralhas e as armaduras de seus cavaleiros.

Lateral da Sé Antiga

Mas, além de ter dado luz ao criador do país, tido por todos como herói guerreiro, como ídolo na sua bravura e retrato de tempos em que a espada pesava muito mais do que a pena, Coimbra também foi palco de uma das mais fortes tragédias românticas, cantada por Camões nos Lusíadas. Por volta do século XIV, a cidade deu luz a Pedro I (o português, que nada tem a ver com o D. Pedro I do Brasil). O sei pai escolhera uma noiva espanhola para ele, que trouxe consigo para a cidade uma dama de companhia de rara beleza: Inês de Castro. Pedro casou-se com a noiva prometida – mas isso não o impediu de se envolver com Inês em um amor que se tornou lendário. Um amor que se iniciou no adultério mas que, com a viuvez de Pedro, foi se consolidando como legítimo aos olhos fechados da nobreza.

Enquanto isso, o reino de Leão e Castelo, na Espanha, entrava em uma perigosa crise dinástica. Considerando que Pedro I era primo dos reis da região, ele estaria, pois, apto a entrar na briga sucessória- tendo sido fortemente incentivado pelos epanhóis irmãos de Inês de Castro.

Em paralelo, a sua paixão proibida já tinha rendido 4 filhos bastardos – despertando o medo do seu pai, Afonso IV, e da nobreza, de que eles acabassem brigando pelo trono português em um futuro próximo.

Por medo de uma guerra com os espanhóis ou de uma guerra sucessória interna – ou por ambos – e por ordem do seu pai, o Rei Afonso IV, 3 dos mais influentes nobres invadiram o mosteiro onde Inês de Castro dormia e a assassinaram enquanto Pedro I estava fora da cidade. O fim tão prematuro do romance mudou completamente a vida do príncipe, que virou rei pouco tempo depois, com a morte de seu pai.

Pedro coroou Inês mesmo após esta ter morrido e fez com que a nobreza ajoelhasse-se perante o seu cadáver e beijasse as suas mãos. Ele foi, em seguida, atrás dos assassinos, tendo encontrado 2 deles e os matado após seguidas sessões de tortura feitas apenas para o seu prazer.

Dizem, aiás, que após o assassinato da amada, Dom Pedro I se transformou em um tirano sádico, que tinha como um dos principais prazeres assistir ao sofrimento lento e severo dos seus inimigos.

Morreu infeliz anos mais tarde, e mandou sepularem-no ao lado de Inês de Castro, no Mosteiro de Alcobaça (ao lado de Coimbra). Os túmulos são belíssimas obras de arte, inaugurando a arte sepulcral portuguesa. O destaque fica para os detalhes do de Inês de Castro, que conta a história do juízo final em alusão à sua própria.

Túmulo de D. Pedro I

Túmulo de Inês de Castro

O prédio é um abrigo estranho para um amor proibido e extra-conjugal que tanto chocou a sociedade da época. Foi inaugurado no ano de 1178 pelos monges do Cister e é a primeiro construção realmente gótica de Portugal. Tem daquelas belezas assustadoras, em tons de cinza desbotado e com luz penetrando entre discretos vitrais e janelas, iluminando um interior de proporções colossais. O mais estranho é que os monges faziam voto de silêncio, discutindo apenas assunto religiosos e apenas no parlatório do mosteiro que, devido à sua arquitetura, faz com que qualquer sussurro seja ouvido, ironicamente, a metros de distância.

Mosteiro de Alcobaça

Todo o mosteiro é aberto a visitação – dos claustros à cozinha, mostrando, mesmo que em cores pálidas, o cotidiano de quase um milênio atrás. Não foi sem motivo que o Mosteiro de Alcobaça foi considerado uma das Sete Maravilhas de Portugal.

Vista das portas do Mosteiro de Alcobaça

Mosteiro de Alcobaça

De volta a Coimbra, entre o nascimento do pai do país e a morte da amante do rei, foi fundada, no século XIII, pelo então rei Dom Diniz, a Univiersidade de Coimbra. É incrível imaginar a visão de um homem que, em plena idade das trevas, decide mudar o curso da história e permitir que conhecimento se espalhasse pelo seu reino, levando-o a um futuro mais próspero. Claro – uma visão presa ainda à relação entre um rei onipotente e súditos obedientes e fiéis, pois regras não faltavam.

Universidade de Coimbra

Uma das primeiras medidas de Dom Diniz foi proibir que qualquer um que não fosse estudante habitasse na parte alta da cidade, região da Universidade e acima da magnífica Porta de Almedina.

Os sinos tocavam não apenas nas horas das aulas, mas também entre as 18:00 e 7:00, horário destinado exclusivamente para descanso e estudo.

Qualquer estudante que fosse pego nas ruas entre esses horários era imediatamente levado pela polícia para a prisão acadêmica.

E, fora estas regras, a universidade conta com uma série de tradições datadas de séculos atrás – parte delas que pôde ser contada pelo Tio Alberto que, ele próprio, havia estudado lá.

Mas, enfim, estava na hora de irmos.

O último lugar que fomos visitar em Coimbra foi o Penedo da Saudade – um recanto perdido na parte alta da cidade, onde os estudantes já formados voltavam para deixar lápides com poemas cantando as saudades que sentiam de lá.

Depois de tantas guerras, conspirações, sofrimento e leis, restou, claro, a nostalgia.

Penedo da Saudade

Sair de Coimbra e voltar para Aveiro – sempre cruzando as pequenas aldeias da Bairrada – foi como deixar para trás quase um milênio de história densa, misturando a leveza de conhecer, ao vivo, parte tão importante da formação do que, cruzando oceanos, viria a ser o nosso próprio povo, ao peso de tantos anos e fatos concentrados em um local menor do que uma pequena cidade interiorana brasileira.

Coimbra, como Portugal, é prova viva de que uma história de porte não tem, necessariamente, nenhuma relação com uma amplitude geográfica. Ou seja, de que tamanho não é documento.



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