Publicado por: ricardoalmeida | Setembro 18, 2007

Buenos Aires

Foi, de fato, apenas um fim-de-semana. Estávamos de bobeira, pensando em coisas diferentes para fazer quando, de repente, um de nós (e nem lembro quem) sugeriu passarmos um fim-de-semana em Buenos Aires.

Já tínhamos visitado a capital portenha antes, de forma que as lembranças não estavam assim tão adormecidas.

Mas, por algum motivo qualquer, elas também não tinham, nem de longe, o grau de poesia que pareceram ter desta vez.

Chegamos ao hotel na noite da sexta-feira – um daqueles hotéis em prédios de estilo parisiense, bonitos, que respiravam um tipo de nostalgia rara de se sentir. Nosso primeiro choque foi ao olhar pela janela: no prédio à nossa frente, provavelmente no mesmo andar, escancarava-se uma imensa janela que deixava à mostra um casal rodopiando pelo salão, ao som de Carlos Gardel, em uma escola de dança. Cena de filme.

Tango

Passamos alguns minutos olhando a cena, imaginando os passos, sentindo a música. Mas estava tarde e nós, exaustos, nos entregamos ao sono.

O dia seguinte amanheceu ainda mais nostálgico – o sol passeava com nuvens brancas, calmas, que sopravam a brisa fria do inverno portenho. O primeiro lugar que visitamos foi Palermo, um dos bairros artísticos da capital argentina – uma espécie de “Vila Madalena” deles.

palermo viejo

Era cedo em pleno sábado – e poucos lugares estavam abertos. De qualquer maneira, entramos em algumas lojinhas, tomamos um café e batemos perna. Andamos pelas ruas de lá por entre sorrisos e carros antigos – igualmente nostálgicos – e começamos a entrar no clima da cidade.

A pé, chegamos na Calle Florida. Verdade seja dita, aquele não foi dos lugares mais bonitos do planeta – era uma espécie de “25 de Março” onde se falava espanhol. Mas conseguimos achar um restaurante aconchegante na região e almoçamos, recuperando a energia para a tarde.

recoleta

Do restaurante, pegamos outro taxi e fomos para a Recoleta. Entre belíssimas praças e ladeiras que pareciam descansar os pés a cada passo, de tão charmosas, ziguezagueamos por pequenos bares, lojinhas, cafés. Petiscamos, tomamos vinhos a cada esquina e – claro – deixamos o bom humor nos levar até o próximo destino.

Que não podia ficar de fora: depois de um bom banho que nos deu as boas vindas à noite, fomos até Puerto Madera.

Buenos Aires é assim… uma cidade perdida nas américas, com ares de Europa, bem cuidada, aconchegante, mas que ainda assim exala uma energia romântica extremamente latina, que deve ter sido matéria prima para o primeiro tango composto.

Puerto Madera é o lado europeu dessa frase. Um porto restaurado, preparado para o turismo, repleto de restaurantes maravilhosos, de bares convidativos, de beleza que enche os olhos. Passamos a noite por lá, decidindo a qual restaurante ir (e a decisão em si pouco importava, já que todos pareciam ser maravilhosos).

puerto

Depois de comer feito reis no La Caballeriza (e pagar feito mendigos, sendo a capital argentina uma das cidades mais baratas que já visitamos), o cansaço nos carregou até o hotel. Enquanto o casal continuava dançando tango no prédio ao lado, nos entregamos – mais uma vez – ao sono.

Na manhã seguinte, fomos ao centro da alma portenha: o Caminito, onde nasceu o tango. Esse talvez tenha sido dos lugares mais poéticos e fortes que já vimos: cores, muitas cortes, se misturavam ao som de tangos que ecoavam pelos alto-falantes, dando margem a casais dançando pelas praças entre aromas persistentes de café e chocolate quente. Ao passear pelas ruelas do Caminito, fomos sentindo – em placas, móveis e nos sorrisos cansados dos velhos – um certo estado puro de vidacaminito.

caminito 2

caminito 3

Provavelmente passamos algumas poucas horas lá – mas foi como se tivéssemos morado por um tempo, tamanha a força do bairro. Saímos ainda em estado de suspensão, meio flutuantes, e fomos até a feirinha de San Telmo.

santelmo

Pequenas lojinhas convidativas, com aquelas lembrancinhas e souvenirs que só se acham em lugares específicos, marcaram o começo da tarde do domingo.

Até que voltamos a Puerto Madera, para sentir o dia clareando o rio, os restaurantes, as pessoas. Dessa vez, sentamos em uma mesa no maravilhoso Las Lilas e, ao olhar a paisagem, nos despedimos de Buenos Aires com uma garrafa de champagne e muita carne de primeiríssima linha.

puerto2

puerto3

A partir dali, paramos em uma loja de vinhos, compramos garrafas e mais garrafas e fomos arrumar as nossas malas. Estávamos voltando para casa.

Já no aeroporto, cada hora de atraso no vôo nos fazia sentir, ironicamente, mais próximos do Brasil. Ficamos remoendo os pensamentos, brincando com as lembranças, ouvindo a música, vendo o casal dançar no prédio vizinho.

Essa foi uma das viagens mais impulsivas que já fizemos: era um fim-de-semana qualquer, em que simplesmente estávamos sem ter o que fazer; não havia feriado e nem nenhuma data comemorativa; e, por ser uma cidade tão próxima e com uma moeda tão desvalorizada, o custo foi uma piada.

Mas, ainda assim, o fim-de-semana em Buenos Aires deve ter sido das viagens mais marcantes e ímpares que já fizemos.

Ainda hoje, meses depois, nos pegamos arregalando os olhos ao ouvir um tango colocado acidentalmente no iPod, sendo atropelados pela nostalgia que só Buenos Aires tem.

Principalmente logo que se volta de lá.


Respostas

  1. Recomendei seu blog, referente a o post “Pesquisar antes de viajar” no Blog osmelhoresdaregiao.blogspot.com


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