Olá a todos! Estamos agora de casa nova – e, claro convidamos todos a conhecê-la! A partir de hoje, o blog de viagens está em http://blogs.abril.com.br/mundopequeno
Sejam todos bem-vindos ao nosso novo lar!
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A nossa peregrinação a Santiago de Compostela foi diferente: não teve cajados, passaporte peregrino, carimbos das estadias e nem pés inchados. Chegamos lá próximo do meio dia, de carro.
Mas, já nos nossos primeiros passos, começamos a sentir o quão diferente era tudo aquilo. Claro: tinha a alegria contagiante do povo espanhol que sempre lota ruas, praças e rostos com sorrisos constantes. É impressionante como países tão próximos tem sangue tão distinto.
Basta cruzar a fronteira que some o peso que os portugueses mais tradicionais parecem carregar, diminui a faixa etária média da população, aumentam os barulhos, os bares, a vida. Nada contra Portugal – pessoalmente, virei um ardoroso fã de tudo que a “terrinha” tem a oferecer – desde paisagens até história, culinária, música, tradições e, obviamente, o próprio povo.
Mas a Espanha tem esse traço mais acentuado da alegria de viver – e isso é simplesmente inegável.
Santiago, talvez a cidade mais importante da orgulhosa Galícia, tem ainda atributos que a diferem do restante do país. Para começar, o idioma: o galego é uma espécie de mistura entre o português e o espanhol, onde facilmente se reconhece origens comuns de palavras e mesmo de sotaques. Por exemplo, na Espanha, Junho se escreve Juño – enquanto na Galícia é Xuño. Parece pouco – mas esse “x” que praticamente substitui o “j” em quase todas as palavras tem absolutamente tudo a ver com o chiado do sotaque português.
A paisagem também é outra. Enquanto a Andaluzia, no sul, é basicamente ocre, e o leste é dominado por desertos, a Galícia é de um verde marcante, que explode diante das nossas vistas em cada canto.
E, é claro, o tipo de turismo. Santiago tem MUITA história para contar – mas ela aglomera tipos diferentes de turistas. Têm os que vão pela história e cultura – como nós, por exemplo. Mas tem também a multidão de peregrinos fazendo o famoso caminho de Santiago – que, vale ressaltar, é forte ao ponto de ter dado origem ao símbolo máximo do pais vizinho, o Galo de Barcelos.
A peregrinação tem um objetivo comum: chegar até o local onde se encontram os restos de São Tiago, um dos apóstolos de Jesus, que descansa hoje na majestosa Catedral.
Mas apesar do cunho religioso, os peregrinos (ao menos os modernos) vão mais em busca de uma jornada de auto-conhecimento do que de pagamento de promessas.
Todos tem aparência semelhante: portam mochilas gigantescas que praticamente cobrem as costas, mancam, levam um ou dois cajados para ajudar na caminhada e tem um olhar meio perdido, solitário. A solidão talvez tenha sido o traço que mais nos tenha impressionado, aliás. Ao se lançar em uma jornada de centenas de quilômetros tendo apenas a própria mente como companheira, certamente deve-se refletir sobre toda a própria existência. E pensar sobre si mesmo e sobre a própria vida está longe de ser uma tarefa coletiva, cooperada. A multidão de peregrinos que enche as praças é, em realidade, uma multidão de indivíduos exaustos, que mesclam a sensação de missão cumprida a uma carga de emoções e visões sobre a vida que eles próprios desconheciam dias antes.
E uma das belezas de Santiago é essa: imaginar a profundidade dos pensamentos que estão a se libertar nas mentes daqueles que se lançaram em jornadas incomensuráveis com o único objetivo de saber quem realmente são. Lá, eles se acharam. Eles terminaram uma viagem ao próprio interior – uma viagem que certamente demandou tanta energia que, no momento em que se depararam com as conchas que simbolizam a chegada, já estavam com os olhos mais secos que a garganta.
A primeira coisa que nos perguntamos foi o porquê da concha como símbolo do caminho. Ocorre que, para provar que efetivamente fizeram o caminho, os primeiros peregrinos traziam, como lembrança, um tipo específico de concha encontrado em uma praia próxima de Santiago. tendo se transformado em símbolo de fé, a concha foi utilizada também para marcar os cavaleiros envolvidos na reconquista cristã da Península Ibérica. Segundo conta-se, aliás, o próprio São Tiago teria aparecido montando um cavalo branco marcado pela concha na Batalha de Clavijo, em 845, lutando ao lado dos seus correligionários. Por este motivo, o santo também é retratado como cavaleiro (em uma discrepante diferença do próprio sentido original de sua pregação), portando o sanguinário nome de Santiago Matamoros (ou São Tiago Mata-Mouros). A sua lenda, no entanto, é bem mais antiga, indo próxima aos tempos em que o próprio tempo começou…
Segundo a lenda, São Tiago, apóstolo de Jesus, foi à Península Ibérica para catequizar o povo Celta, que dominava a região. Ele acabou sendo capturado e, no ano de 44, foi executado em Jerusalém. Seu corpo, no entanto, foi levado à região da Galícia e abandonado por volta do século III, em plena perseguição religiosa romana.
No ano de 814, um heremita chamado Pelayo avistou luzes estranhas guiando-o para uma gruta – onde ele encontrou os restos mortais de São Tiago. Reconhecendo o achado como um milagre, o Bispo Theodemir de Iria mandou uma mensagem ao rei austríaco Alfonso II. Este imediatamente mandou erguer uma capela no local e foi, anos depois, o primeiro peregrino a percorrer o que seria a primeira rota de Santiago. A capela cresceu e virou uma igreja, construída em estilo pré-românico, no ano de 899.
Com a invasão árabe, ela acabou sendo totalmente destruída, tendo os seus sinos transportados para mesquitas em outras regiões da península.
A catedral atual começou a ser construída no ano de 1075 sob o comando do Rei Afonso II de Castela, tendo a sua última pedra sido colocada em 1122.
A Catedral tem o seu interior em estilo românico, ainda praticamente intocado e nítido pelos arcos dos corredores e pela altura do seu pé direito. Em cada canto, capelas diferentes preenchem a nave com imagens religiosas recontando a história de São Tiago e de outros santos, todos homenageados com velas permanentemente acesas.
Uma imagem fica próxima à entrada – e, segundo a lenda, quem passar a mão nela terá sorte na vida. Séculos de tradição foram responsáveis por afundar a tez da imagem com marcas de mãos de religiosos, de peregrinos e de turistas sem nada a perder.
No centro da Catedral, uma pequena escada leva a uma espécie de subsolo. Lá, separado por um grosso vidro de proteção e de barras, está o túmulo de um dos primeiros santos da cristandade – sendo sempre velado por um público fiel à religião ou à tradição.
Existe ainda uma capela específica para peregrinos: apenas eles podem entrar e rezar, sendo que até mesmo a fotografia é proibida. É curioso encontrar uma única e pequenina área reservada para o “sagrado” dentro de uma imensa catedral.
Do lado de fora, o cenário relembra onde estamos: ruas estreitas com calçamento de pedra, comum por toda a Espanha, cedem espaço para praças largas, ventiladas e alegres, para dizer o mínimo.
A própria catedral se modifica, abandonando o estilo românico e cedendo espaço a séculos de reformas que a transformou em algo diferente, chegando próximo do barroco.
A fé parece não se incomodar com o sem número de bares que lotam os seus arredores, produzindo sorrisos alcoólicos que exibem blasfêmias em cada dente.
Em cada esquina, na medida em que a hora ia avançando e o sol se despedindo, grupos de músicos em trajes típicos faziam apresentações públicas. Violinistas solos, bandas e gaitas de fole, herança dos celtas que primeiro povoaram a Galícia, enchiam o ar de música e de alegria.
Tudo isso no mesmo lugar.
E, com esses sons em mente, dormimos em um pequeno hotel do século XVIII no centro da cidade, todo feito de pedra e nos fazendo viajar, mais uma vez, no tempo.
No dia seguinte, essa nossa escapada de uma semana chegava ao fim. Entramos no carro, rumamos de volta a Portugal, jantamos um bacalhau como poucos perto de Ílhavo (Bacalhau do Batista) e pegamos o vôo para o Brasil, de onde termino de escrever este último post.
Publicado em Europa | Tags:Alfonso II, Caminho de Santiago, catedral, espanha, Matamoros, Peleyo, peregrinação, peregrino, pré-românico, reconquista, românico, Santiago de Compostela, Santiago de Matamoros, São Tiago
Para alguém nascido em Portugal, essas próximas palavras podem parecer fruto da mais pura ignorância. Mas para quem é brasileiro, é difícil pensar no velho mundo como portador de praias bucolicamente paradisíacas, com águas que mesclam azul cintilante a verde-esmeralda entrecortadas por pedras que desafiam a força da gravidade.
Pois assim ele é. E isso porque nem estávamos na famosa região do Algarve – estávamos por ali mesmo, há cerca de 90 quilômetros ao norte de Lisboa.
Claro – Portugal continua sendo portador de uma história que desbanca qualquer paisagem – e por todos os cantos existem fortes, fortalezas e castelos.
Peniche, por exemplo, guarda uma fortaleza secular que serviu tanto como defesa dos portos do império até como prisão politica no século XX. Foi dessa fortaleza, com celas de ferro e pedra que conflitam com a beleza exterior, que António Lopes, um dos fundadores do Partido Comunista Português, fugiu a algumas décadas. Não dá para culpá-lo: qualquer pessoa em sã consciência, independente de qualquer inclinação ou ideal politico, tentaria fugir se fosse diariamente confrontado com aquele mar azul.
Peniche também é porto de partida para as Berlengas, um pequeno arquipélago que, ao menos nas fotos, parece ser a parte mais bonita do paraíso. Não conseguimos ir até lá, no entanto: os barcos que faziam o trajeto turístico já haviam partido.
Mas nos pusemos a rodar pelas cidades costeiras. Em Baleal, chegamos a uma pequena colina rodeada de mar e de uma espécie de salitre que cheirava a calmaria. Nessa colina de ruas estreitas e casinhas brancas, um hotel se insinuava como que tentando complementar a já impressionante beleza. Do seu deck, algumas pessoas tomavam cerveja e outras, sozinhas, se punham a ler jornais ou a escrever em seus notebooks. Não havia lugar melhor no mundo para se trabalhar.
O difícil mesmo era sair daquela região. A cada metro, uma nova paisagem se desacortinava. Entre Foz do Arelho e Nazaré, novas paradas para fotos se faziam obrigatórias.
Mas os dias, infelizmente, teimam em terminar – e no por do sol (ou seja, próximo das 10 da noite do verão europeu) rumamos de volta para casa. Cansados, mas com a vista abençoada por cenas que eu, pelo menos, jamais imaginei ver – ao menos na terra do galo de Barcelos.
No dia seguinte, um passeio diferente nos esperava: Óbidos, pequena cidade medieval que servia de descanso para muitos dos reis e rainhas.
Óbidos é uma daquelas vilas que parece ter parado no tempo há séculos atrás. Foi fundada na pré-história, tendo sido sucessivamente conquistada pelos Lusitanos (século IV AC), Romanos (século I), Visigodos (séculos V e VI), Muçulmanos (século VIII) e cristãos (século XII), estes últimos comandados por D. Afonso Henriques, o primeiro rei português.
Todos deixaram as suas marcas – desde os Visigodos presentes em algumas ruínas, os romanos com um aqueduto que resiste ao tempo, passando pelos muçulmanos, com o estilo arábico ainda presente na muralha que cerca a cidade, chegando aos cristãos antigos com o castelo medieval que observa a vida dos seus súditos.
O castelo de Óbidos fica no alto da colina onde descansa a cidade, tendo sido erguido pelo filho de Dom Afonso Henriques, Dom Sancho I. Com o passar do tempo (e até meados do século XIX), ele foi parte do dote das rainhas, passando de mão em mão como símbolo de poder e riqueza.
Usado para guardar a cidade, o castelo é, hoje, o ponto ideal para se observar e imaginar conflitos de vontades, paisagens e tempos. Olhando para baixo, vê-se a vila, com suas casinhas espremidas dentro das muralhas, ruas estreitas e o burburinho dos transeuntes. Erguendo-se mais o pescoço, o tumulto da pequena urbe cede espaço a uma imensidão verde do lado de fora, de onde certamente tantos inimigos foram avistados. E isso tudo sob um céu imóvel, quente, impávido como testemunha que foi das glórias e desgraças humanas.
Hoje, o castelo é um hotel – e de lá pode-se degustar um pouco da vida de um nobre antigo. De lá, uma simples olhadela por uma das suas janelas de pedra serve para se testemunhar as marcas deixadas pela história e deixar a imaginação correr solta ao tentar entender o choque entre a quantidade de sangue derramado no passado e a calmaria quase tumular da modernidade.
Óbidos é uma cidade linda – e o nosso único pesar foi ter que deixá-la antes do dia seguinte.
Medina significa centro urbano – é o lugar em que se vivia e em que ainda se vive em muitas das cidades árabes. Na medina de Fés, a maior do mundo, cerca de 500 mil pessoas vivem, trabalham, rezam e vão à escola – tudo isso dentro dos seus 17 quilômetros de muralhas. Pouco, dada a quantidade de pessoas.
Mas, antes de entrar na medina, nosso guia (que contratamos logo pela manhã, no próprio hotel) nos levou para conhecer os arredores: fomos ao bairro judeu e a uma fábrica de cerâmica. Tudo era diferente, exótico. As burcas, as pessoas, a confusão do trânsito, o idioma.
O primeiro real contato que tivemos com o “turismo varejista” marroquino foi na fábrica de cerâmica. É claro que o intuito deles é vender para os turistas – mas, para tanto, eles explicam e mostram cada etapa do processo de fabricação dos seus produtos. Se fosse uma fábrica convencional, industrializada, o interesse gerado seria mínimo – mas tudo era artesanal lá, desde os desenhos até a finalização das panelas tagines, das mesas, das fontes. Uma mais maravilhosa do que a outra, aliás. Estávamos já encantados quando partimos rumo a uma das portas do palácio real.
No caminho, uma vista sensacional da Medina: estávamos do alto olhando para um centro urbano que parecia ser absurdamente compacto, espremido – mas funcional. A ansiedade por entrar nela crescia a cada minuto.
No palácio real, portas de ouro e bronze com detalhes microscópicos em seus ornamentos brilhavam os olhos. Descobrimos depois que parte dos detalhes, de tão minuciosos, tinham sido feitos com agulhas marteladas suavemente no metal. Quase perdemos a câmera neste momento: descobrimos também que tirar fotos de prédios reais era uma ofensa quando um policial veio bradando – em árabe – o que parecia ser uma tempestade de insultos e questionamentos. Por fim, nosso guia acabou convencendo-no de que não éramos terroristas e de que estávamos apenas desavisados, pedindo desculpas. A foto, no entanto, permaneceu. Ainda bem.
Dali, entramos na Medina. De repente, estávamos em um labirinto de quilômetros de cumprimento, feito de ruas estreitas, abarrotadas de gente e margeado por pequenos balcões de lojas. Eventualmente, gritos eram ouvidos – em árabe, claro: eram avisos de que o “taxi da Medina” – mulas ou jegues – estavam passando. E, entre pessoas, animais, frutas e um permanente cheiro de especiarias exóticas, nos encontramos em um mundo completamente diferente de tudo. De quando em quando, parávamos em alguma loja, entendíamos como determinado produto era feito, comprávamos algo. E voltávamos para o labirinto.
É impossível dizer o que era mais chocante: subir escadas mais apertadas do que as ruas beges e se ver em salas gigantescas, inteiramente ornamentadas nos mínimos detalhes e cobertas de pratos de ouro, bronze, prata ou cobre ou voltar para as ruas, em meio a mulheres de burca, a homens sem dente e à sensação de estar em um lugar que devia ser exatamente igual a mil anos atrás.
Em um dos lugares que entramos, entregaram-nos um curioso ramo de hortelã. “Para esconder o cheiro”, disse o guia. Subimos alguns lances de escada e, de repente, estávamos em um ambiente completamente aberto, onde o solo era feito de tanques que continham líquidos das mais variadas cores e, dentro deles, homens que pareciam dançar por sobre couros imersos. Daquele ambiente colorido saíam as roupas marroquinas, 100% naturais e fabricadas da mesma forma que no passado pré-industrialização.
O processo de fabricação era curioso. Primeiro, o couro era imerso em um tanque repleto de sucos cítricos, par remover os pelos. Em seguida, em tanques com – pasmem – dejetos de pombo. Por conterem alguns ácidos específicos, era aquela pasta que amaciava o couro. Em seguida, eles eram pisados nos tanques coloridos – sendo as cores extraídas de plantas, flores e assim por diante. Dava para ver todo o processo acontecendo, para sentir o cheiro de pele virando roupa, para deixar os olhos brilharem com as forças das cores.
Depois, mais ruas. Não podíamos entrar nas mesquitas – isso era território sagrado para os muçulmanos, que, ao menos ali, eram muito pouco tolerantes a turistas. Mas conseguimos ver de fora e tirar fotos. Parece estranho aos olhos de hoje, que costumam confundir o islã com o controle rígido da informação e com a censura – mas dentro daquela medina estava a primeira universidade do mundo. Um complexo imenso composto de incontáveis salas de aula, mesquita e dormitórios para os alunos em uma espécie de complexo multifuncional como os mais modernos que vemos hoje. A diferença é que, como quase tudo ali, ele tinha mais de 1000 anos.
E, enquanto espremíamos os olhos pela porta da universidade, ouvimos um som estarrecedor: era a convocação, feita em auto-falantes espalhados pela medina, para que todos fossem rezar. Tocava cinco vezes por dia e, a cada vez, as lojas esvaziavam-se, as vendas cessavam e, por poucos minutos, o tumulto parecia evaporar e dar lugar à oração.
Mas logo tudo voltava ao normal e os auto-falantes eram substituídos pelas vozes que negociavam compra e venda de bens, que falavam sobre a vida alheia, que teciam a história de algo que parecia eterno.
Em meio às vozes e às esquinas, portas de cedro trabalhadas abriam caminhos para bancos, mais mesquitas, museus de armas.
O único problema da medina era o excesso de informação e de contraste que esmurra os olhos do turista convencional, arrancando-o, subitamente, de tudo que ele costumava entender como mundo e lançando-o em uma reliadade jamais imaginada. Concluí ali que era fundamental visitar uma medina pelo menos duas vezes: uma para entendê-la e digerí-la, outra para conseguir isolar os seus ângulos e fotografá-la com a calma necessária.
Infelizmente, o nosso tempo era menor que a nossa necessidade, e tivemos que nos contentar em fazer tudo simultaneamente.
Saímos com a sensação de ter passado uma ou duas semanas naquele local, comprimidas em 4 horas.
Conhecer a medina de Fés foi das experiências mais sensacionais que já tivemos.
De lá, fizemos o nosso caminho de volta para Tanger. Por conta do mau tempo, atravessamos para outro porto espanhol – Algeciras -, rumamos para Tarifa, pegamos o nosso carro e partimos de volta a Portugal.
Estava terminando uma das viagens mais sensacionais que já fizemos – uma viagem intensa, por três países que, um dia, foram uma única cultura e um único povo. Por três países que, somados alguns séculos e muitos acasos, se distanciaram, multiplicaram as suas identidades e acordaram o seu passado comum como apenas um daqueles momentos em que o mundo como o conhecemos começou a tomar forma.
No caminho de volta, cada momento dessa viagem voltava aos nossos pensamentos. Da Espanha, conseguimos entender melhor sobre como se pode viver o presente com intensidade. Do Marrocos, a força incomparável do Tempo que, quando quer, consegue efetivamente ficar parado, ignorando todas as leis do universo e transformando o passado em um eterno presente. E, finalmente, Portugal, berço da cultura brasileira. Para nós, está claro que conhecer Portugal, suas contradições, suas cores felizes e seus ares nostálgicos é fundamental para qualquer brasileiro que queira se conhecer de verdade.
E, no final das contas, o que era para ser uma viagem normal de duas semanas se transformou em uma das mais poderosas viagens pelo tempo, pela história e pela vida como um todo.
Pena que acabou!
Segundo o candombé, 2008 será regido por Ogum, Orixá das guerras. Usamos as suas cores na virada do ano – branco e azul – mas nenhuma homenagem poderia ser maior do que a aventura para a qual partimos no primeiro dia do ano.
Tão logo acordamos, arrumamos as nossas coisas e rumamos para Tarifa, porto no extremo sul da Espanha. Deixamos o nosso carro alugado estacionado por lá e compramos duas passagens para Tenger, um dos mais importantes portos marroquinos. O plano era ir a Fés, conhecer e vivenciar a maior e mais antiga medina do mundo árabe, e voltar para a Espanha dois dias depois, seguindo direto para Portugal e para o nosso vôo de volta ao Brasil.
Culturalmente, conhecer Fés nesta viagem significaria fechar tudo o que vimos sobre Portugal – afinal, a região ibérica esteve, ao menos parcialmente, mais tempo sob controle muçulmano do que cristão – mesmo se considerarmos os dias de hoje.
Além disso, a curiosidade nos empurrava para o país – conhecer as origens de todos os vestígios que a civilização árabe deixou para trás quando abandonou a península se fazia fundamental.
E, claro, existia a própria curiosidade de se conhecer uma civilização em nada parecida com a nossa.
Pois bem… disso, realmente, não pudemos reclamar.
Ao descer no porto de Tanger, nosso primeiro choque: entramos em um taxi – daqueles caindo aos pedaços – rumo ao aeroporto da cidade, onde o carro que alugamos deveria estar à nossa espera. O taxista, de vestimentas árabes e falando um espanhol arranhado, logo colocou uma fita cassete tocando uma música marroquina no mínimo exótica aos nossos ouvidos. E, logo na saída do porto, já pudems ter um gstinho do Marrocos: ele subiu uma espécie de uma colina, em algo que parecia ser uma rua com um trânsito que misturava outros carros, pedestres, mulas e muita, muita gente. Mulheres de burca nos olhando estranho, diálogos esparrando na janela entreaberta do taxi como se fossem brigas, discussões. Cruzamos Tanger assim até chegarmos ao aeroporto. Em minha cabeça, a única coisa que se passava àquela altura era como eu conseguiria dirigir em meio aquele caos.
No aeroporto, a primeira surpresa: a Hertz, de quem havíamos alugado o carro, só operava no período da manhã – e já passava das 14. Não tínhamos muita alternativa a não ser alugar o carro de uma companhia local, cujo vendedor estava pronto a nos atender. Nem discutimos muito – aceitamos a oferta e fomos ver o veículo. Bom…. era meio velho, para dizer o mínimo. A quilometragem estava bastante rodada, tinha uma ou outra batida e o rádio não funcionava direito. Mas, já que já estávamos ali, o melhor que poderíamos fazer era seguir em frente.
Ele nos indicou o caminho para Fés, instruindo-nos a pegar a auto-estrada até uma cidade chamada Kenitra e, depois, pegar uma estrada local até a cidade.
A auto-estrada em questão era, de fato, um tapete. E eu realmente estava a me interrogar sobre o motivo que apenas eu passava dos 120 km/h quando, de repente, um policial me mandou encostar. Ocorre que as estradas marroquinas são extremamente bem patrulhadas e, mesmo após descobrir que éramos brasileiros (o que funciona como uma espécie de cartão de visita muito bem aceito em lugares mais exóticos), o policial nos multou em 400 Dirhams – ou cerca de 40 Euros.
Lição aprendida, seguimos aos 120 km/h – ao menos até desviarmos para a estrada local.
A partir deste ponto, quem guiou o carro foi a tensão.
Estávamos no pôr-do-sol, e a perspectiva de chegar a Fés à noite não era das mais agradáveis. E, para piorar, a estrada era estreita, com eventuais pontos de trânsito e cortando umas pequenas vilas absolutamente tenebrosas – daquelas que pareciam ter sido bombardeadas em alguma guerra passada. Se não soubéssemos onde estávamos, certamente acreditaríamos ter caído no meio do Iraque pós-guerra!
E as vilas iam se sucedendo – cada uma trazendo mais tensão e nervosismo.
A noite ia chegando.
A cada curva, a possibilidade de um cicilsta desavisado estar no caminho ou de carros vindo na contramão.
A cidade parecia se afastar. O tempo passava tão devagar que, em certo momento, pedi a Ana Lia que me dissesse as horas, pois o relógio do carro parecia estar empacado nas 18:11. Infelizmente, ele não etava: ainda eram 18:11.
Conseguimos chegar a Fés por volta das 19:30, já em plena noite. Para chegar ao nosso hotel – um Ibis – paramos em alguns postos e perguntamos para pessoas diferentes. Ao perguntar para mulheres, estas apenas olhavam, mudas, para os maridos – que nos respondiam. Mulheres casadas não podem falar com ninguém lá.
O idioma, que do português tinha mudado para o espanhol há apenas dois dias, agora virou o francês. Não e o idioma oficial do Marrocos – mas era o que todos sabiam falar, dada a recência da independência do país que, até 1956, era um protetorado francês.
Até que, por volta das 20:30, avistamos a placa mágica do Ibis. Àquela altura, ele parecia ser um daqueles hotéis 6 estrelas que ouvimos falar. Era algo conhecido, onde a sensação de segurança voltava.
Ainda estávamos sob o impacto da verdadeira jornada que fizemos até lá e um pouco apreensivo pelo que veríamos de fato na cidade. Mas, graças aos céus, todas as expectativas foram superadas no dia seguinte, quando conhecemos a maravilhosa medina de Fés – um dos lugares mais espetaculares que já vimos na vida.
Com um pouco mais de estrada, chegamos em Sevilha. Era o dia 31 de dezembro.
A região que Sevilha faz parte, a Andaluzia, foi primeiro batizada de Al Andalus – ou “Terra dos Vândalos” – pelos árabes, em alusão ao povo que a dominava depois dos romanos. Os mesmos árabes lá chegaram por volta do século VIII, tendo permanecido até o século XII. Durante este período, eles transformaram a cidade em uma das metrópoles mais relevantes de todo o mundo, chegando ao status de capital de um dos califados.
Tendo sido retomada pelos cristãos e passado por uma fase de fanatismo católico como toda a península ibérica, o caldo sociológico que virou o legado de Sevilha a transformou em uma das cidades mais interessantes da Europa, com uma cultura mista, meio cristã, meio árabe e totalmente autêntica.
Pudemos conferir isso de uma maneira diferente: por alguns poucos Euros, alugamos duas bicicletas e passamos algumas horas rodando por cada uma das ruas do centro histórico da cidade. De muralhas à famosa catedral, passando pela Giralda (que depois descobrimos ser, originalmente, uma das mais altas torres de mesquitas do mundo), por praças encantadoras e repletas de laranjeiras e ziguezagueando por todo lado.
Sevilha estava pulsando. Pessoas de todas as nacionalidades enchiam as suas praças e os seus cafés, deixando-nos com um certo orgulho de fazer parte daquilo.
E, enquanto o último raio de sol de 2007 se despedia, nossa ansiedade pelo Reveillon aumentava. Não tínhamos programado absolutamente nada. Aliás, só decidimos por um local depois que perguntamos, já no final da tarde, para um dos garçons de um dos cafés que entramos para enganar a fome com as famosas “tapas”. Ficaríamos na Plaza Nueva, onde, nos informaram, tudo aconteceria.
Fomos ao hotel, nos arrumamos e estávamos de partida para 2008.
Nas ruas, pessoas começavam a aparecer do nada, saindo de suas casas e perambulando pelo centro, todo iluminado com aquela luz amarela cheia, brilhante, convidativa.
E, após comermos algo em um dos restaurantes, fomos direto para a Plaza. Ela estava absolutamente lotada de todos os idiomas, conhecidos ou não. Conseguimos identificar ingleses, franceses, alemães, russos, portugueses, espanhóis, dinamarqueses, americanos. Enfim…. todos.
E todos olhando atentamente para o centenáio relógio que parecia benzer a praça – o mesmo relógio que deve ter batido tantas viradas de ano, por tanto tempo.
11:55. Fogos já eram ouvidos – os mais ansiosos não se seguravam mais. Um grupo de italizanos já festejava como se fosse 1 da manhã.
11:56. Garrafas de champagne começavam a deixar as sacolas plásticas.
11:57. Um grupo de portugueses atrás de nós começava a gritar o nome do seu país em um súbito rompante de nacionalismo.
11:58. Todos começavam a se olhar e a conferir, nervosamente, os ponteitos do relógio.
11:59. Não havia ponteiro de segundos, então alguns grupos mais míopes já davam os gritos e os abraços.
Finalmente, chegou a meia noite. Todos, todos começaram a se abraçar. Entre beijos e algumas lágrimas, nós fomos nos familiarizando com a forma de dizer “feliz ano novo!” em tantos idiomas diferentes.
Estávamos em uma cidade relativamente pequena, em uma praça perdida na Espanha – mas parecia que estávamos no epicentro do mundo, dada a quantidade de nacionalidades que marcavam presença lá.
Os italianos continuaram gritando; os portugueses já haviam desaparecido; um grupo de tchecos subia em uma das estátuas para enxergar melhor a multidão; e nós, os únicos brasileiros que pareciam estar ali, estávamos concentrados na nossa própria euforia.
E, entre gritos, champagne e um sentimento de globalização como poucos, o ano de 2008 chegou prometendo ser ainda melhor do que 2007.
De Lisboa, pegamos a estrada e seguimos rumo ao sul. A cada novo quilômetro, íamos sentindo mais as marcas da presença árabe na região – foram incontáveis, por exemplo, as cidades cujos nomes começavam com “Al” – sem contar com a arquitetura.
De colorida, ela foi ficando branca. Cortamos todo o Alentejo por pequenas aldeias, já com características diferentes das do norte – parecendo serem mais “felizes”, inclusive.
Velhas pastoras com bucólicos rebanhos de ovelhas foram mostrando o caminho, recheado de pequenas pontes e estradinhas sinuosas. Até que, de repente, avistamos a placa para a primeira praia do caminho: Odeceixe.
Entramos na praia e, de repente, esbarramos com pequenas falésias e uma maravilhosa formação rochosa num mar de azul cintilante, cercado de casinhas brancas por todos os lados. Dado o frio de cerca de 15 graus, a praia estava vazia – mas a paisagem foi impagável.
Tiramos algumas fotos e voltamos para o carro – a meta era chegar a Sagres, aquela última ponta no mapa de Portugal, onde os antigos acreditavam ser o fim do mundo. E foram poucos os quilômetros até alcançarmos a fortaleza de Sagres, mandada construir pelo Infante Henrique – o rei que mais incentivou as navegações portuguesas e que tinha uma ligação tão forte com o mar que foi lá, no fim das terras, que ele decidiu viver os seus últimos dias.
A fortaleza é antiga e está em ruínas – mas ainda assim consegue ser belíssima. Tem um branco que chega a brilhar – principalmente se comparado às gigantescas falésias que desabam sobre um azul cintilante.
No aspecto de beleza natural, ao menos até agora, Sagres está sem dúvidas no topo da lista. Não havia tempo que bastasse para nos satisfazermos com a riqueza do local, frequentado desde a antiguidade por homens do mar que lá iam para pedir proteção aos deuses, antes de se lançar ao desconhecido Atlântico.
Dá para sentir uma energias diferente, talvez fruto de tantas crenças e pedidos de proteção em um lugar isolado, distante de tudo e de onde se ouve apenas os gritos das ondas esbarrando nas falésias.
Sagres é um ponto essencial em qualquer visita aqui. É onde a própria história, tão rica, chega a ceder espaço para a natureza, para o que esteve lá antes de qualquer pessoa – e continuará estando até depois de todos termos ido embora.
Mesmo agora, daqui da frente de um computador, na véspera de deixarmos Portugal rumo a Sevilha e ao Marrocos, ficamos imaginando como será a noite em um lugar tão ímpar como Sagres que, por si só, coroa a paisagem sempre com cara de pôr-do-sol do Algarve.
As saudades já começam a bater.
Chegamos em Lisboa no início da tarde. Com tantas pequenas aldeias e paisagens bucólicas que passamos no caminho, entrar em uma cidade realmente grande nos chocou um pouco – mas a beleza da capital portuguesa logo encheu os olhos.
Diz a lenda que Lisboa foi fundada por Ulísses, há eras atrás. Lenda ou não, o fato é que, pela sua localização privilegiada em relação ao velho mundo e à posição estratégica em uma baía com diversos pontos de defesa, a cidade logo se tornou um dos principais centros comerciais do planeta.
Foi um importantíssimo porto mouro, quando os árabes dominaram a península ibérica, frequentado por mercadores italianos, judeus, por bárbaros e, claro, pelos próprios árabes. E, no topo da colina mais alta, estes construíram um forte que conseguia ver toda a cidade e defendê-la contra ataques dos cristãos ou de qualquer outro povo.
Estamos agora no século XII. Afonso Henrique havia acabado de conquistar Guimarães e de fundar o reino português, gerido do atual norte do país. É claro que, até por uma questão de sobrevivência, chegar a Lisboa era fundamental.
As tentativas logo se iniciaram – mas a força dos árabes era tamanha que Dom Afonso levou 3 tentativas para, finalmente, conseguir romper os muros da cidade e dominar o castelo. Para tanto, ele contou ainda com apoio dos mais diversos povos – destacando os ingleses, com os quais iniciou uma aliança que dura até os dias de hoje. A promessa para os aliados: garatia de saque livre à cidade tão logo esta fosse dominada.
E, finalmente, ela o foi. Os árabes foram expulsos da metrópole – mas esta continuou sendo gerenciada de forma a impulsionar ainda mais o comércio.
Dom Afonso aproveitou a força do castelo árabe que tanto o desafiou e, sobre ele, construiu um ainda maior, com 4 novas torres e muralhas reforçadas. Hoje, ele é conhecido como o Castelo de São Jorge – que foi por onde iniciamos a nossa visita à cidade.
O castelo está, de fato, em ruínas. Mas a carga histórica é tamanha, mesclando um forte medieval com traços nitidamente árabes (como o formato das janelas das torres originais), a um conjunto belíssimos de casas coloridas e perfeitamente preservadas e a uma vista impagável, que o sangue chega a correr mais rápido.
Ficamos um tempo lá, caminhando pelas muralhas, pelo chão e imaginando a vida na cidade que à época, era o motor principal da Europa. Aliás, para se ter idéia, quando Paris e Londres contavam com algo como 10 mil habitantes, Lisboa tinha 100.000 cidadãos. Era a Roma da Roma antiga, a Nova York de hoje.
De repente, surge pelas paredes do castelo um violão, ecoando alto pela tarde fria de céu claro. Chegamos perto e vimos um violonista tocando só músicas que variavam de Villa-Lobos a Zé Ramalho. Uma trilha sonora impecável.
De lá do castelo, voltamos caminhando pela Sé velha, passando pelo lugar onde os muros árabes ficavam até chegar ao Paço, já na beira do Tejo. De lá, portões estonteantes davam as boas vindas aos visitantes, chamando a todos para conhecer o que restava da opulência do que antes era o centro do mundo.
Ocorre que, séculos depois, Portugal acabou sendo anexado ao reino espanhol por conta de uma crise dinástica que deu ao rei espanhol o controle do país. Além de fanaticamente católica e ultraconservadora, a Espanha tratou Portugal como uma colônia.
Agora, estamos no século XVI. O Brasil já havia sido descoberto, sucedendo uma passagem para as Índias e colônias africanas. Mas o governo espanhol foi de tal forma desastroso para o país que Portugal entrou em uma fase de extremo declínio. A implantação da inquisição usurpou fortunas dos mercadores judeus, deixando os demais comerciantes em tal pânico que eles logo deixaram a cidade. E, além das perseguições religiosas e de surtos de peste, outros pontos no globo começaram a crescer e a florescer.
Mesmo depois que os Bragança, originais da região rural do Porto (e com uma rivalidade histórica da Lisboa mercantil), o reino nunca mais conseguiu voltar a ser o que era. Ficou sujo, pobre. A tristeza de uma fase tão acentuada de declínio ficou, de certa forma, culturalmente impressa no português – e talvez daí venha o ar de nostalgia tão presente por todo o país. Mas, ainda assim, entre o belo e o decadente, Lisboa tem a sua história preservada em pontos que vão desde o Castelo e as igrejas até os tantos fortes, a maravilhosa Torre de Belém, erguida no século XVI como ponto de defesa e o moderno monumento ao descobrimento – erguido no ponto em que as naus deixaram Portugal rumo ao novo mundo, abrindo um novo capítulo na história da humanidade.
Circulamos por todos esses pontos, pelo Mosteiro de São Jeronimus, jantamos nas Docas e ainda esticamos a Caxias, Estoril, Cascais. De quando em quando, olhando as casas que inspiraram a arquitetura brasileira, as águas brilhantes do Tejo, o Atlântico convidando a todos aos mares.
Lisboa foi, sem dúvidas, uma das cidades mais bonitas que já conheci – e estar lá é, acredito, fundamental para qualquer brasileiro que queira conhecer melhor as suas próprias origens.
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Quando o rei de Castela descobriu que Afonso Henriques, seu primo, havia batalhado contra a própria mãe (aliada da Espanha) e decretado a independência de Portugal, ele ficou enfurecido. E, claro, sua primeira medida foi fazer um cerco em torno do Castelo e Guimarães, onde estava o recém entronado Dom Afonso I e sua corte. O cerco durou muito tempo, levando a vila de Vimaranes a uma situação de desespero e fome. Ao circular pela vila, um dos aios de Dom Afonso I ficou tão chocado com a situação que, ele mesmo, foi até o rei de Castela prometendo a vassalagem do amo em troca de piedade para o povo.
O rei aceitou mas, quando o aio comunicou o fato ao rei português, este imediatamente o desautorizou e garantiu que preferia morrer a se submeter novamente à Espanha. Envergonhado, o aio foi, juntamente com toda a sua família, de cavalo e com cordas nos pescoços de todos, oferecer as suas vidas em troca da palavra dada para o rei espanhol.
Depois de um tempo, a Espanha desistiu do cerco e de recuperar o país.
É importante entender que fala-se aqui de uma época muito anterior ao que o imaginário popular dita sobre a vida de reis e rainhas.
O Castelo de Guimarães, berço de Portugal, foi mandado erigir no século X e serviu de palco para os acontecimentos narrados acima no século XII. À época, não haviam aposentos luxuosos para os nobres, quartos banhados a ouro ou coisas parecidos. Na verdade, a ala residencial do castelo ficava dentro da principal torre, que se dividia em andares. O térreo era o ambiente comum, onde todos entravam para dar recados, visitar etc.
Nos andares intermediários ficavam os nobres – que dormiam juntos, sem a existência de uma só divisória. Banheiros? Não havia – luxo desnecessário, talvez. E, no último andar da torre, ficava o rei – no caso, D. Afonso I.
Apesar de ter nascido em Coimbra, foi em Guimarâes que passou a sua vida. Logo que nasceu, foi batizado na igreja ao lado de castelo – uma casa também em estilo romanesco e completamente desprovida de qualquer tipo de decoração – a não ser pelo crucifixo no altar e pelos túmulos de nobres no seu chão. E foi de lá que ele coordenou, politicamente, a fundação de seu país, gerando o sentimento de unidade nacional no povo do condado portucalense, articulando o apoio da Santa Sé em troca de promessa do pagamento de tributos e assim por diante.
Com a evolução da monarquia e dos tempos, o castelo ficou simples demais para abrigar os nobres – e, entre os séculos XIV e XV, um outro castelo foi construído ao lado – o Paço dos Duques. Este sim, muito mais espaçoso, repleto de aposentos e coberto de luxo, chegou inclusive a ser residência oficial do presidente de Portigal em 1950.
E são essas três construções – o Castelo de Guimarães, a igreja romanesca e o Paço dos Duques – que fazem da cidade uma obra de arte.
Até as casas da vila parecem ser diferentes das que vimos em Porto ou em Coimbra. Ao invés de esbanjarem as cores que marcam a arquitetura típica portuguesa, são feitas de pedra, com aspecto milenar. Amontoadas umas nas outras, geram ruas estreitas e escuras, um tanto assustadoras, até. As muralhas praticamente não existem mais – mas existem marcações ilustrando por onde elas passavam.
Enfim… um exercício de imaginação sobre a vida em temps realmente medievais.
Eu, pelo menos, ainda não conheço tanto de Portugal – mas está claro para mim que vir para cá sem visitar esta cidadezinha que abraça os castelos mais históricos do país pode ser considerado um crime!
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A história de Coimbra remonta aos antigos romanos, quando da sua ocupação da Península Ibérica. Depois, aos hispânicos, passando para as mãos dos árabes nas invasões mouras. No ano de 878, as primeiras tentativas de reconquista começaram – uma época em que toda a região pertenceria à Espanha, já que o reino de Portugal nunca fora constituído. Finalmente, em 1064, os mouros foram expulsos e Coimbra renasceu como a cidade mais importante ao sul do Douro, capital de um dos maiores condados da região.
Foi na segurança das suas muralhas que o Conde Henrique e D. Teresa, vassalos dos espanhóis, escolheram viver. Foi também lá que nasceu o filho da casal, Afonso Henrique, que mais tarde viria a ser o primeiro rei de Portugal.
E é logo do lado de fora das antigas muralhas da cidade, na Igreja da Santa Cruz, que Dom Afonso Henrique – ou Dom Afonso I – descansa em seu túmulo. À sua frente, o túmulo do seu filho (e segundo rei português), Dom Sancho I. É curioso imaginar como os laços familiares entre os dois foram fortes ao ponto de escolherem descansar juntos – principalmente levando em conta que a declaração de Portugal como reino independente foi fruto de uma briga entre D. Afonso e a sua mãe, Dona Teresa, depois da morte do Conde Henrique.
De qualquer forma, Coimbra é, assim, pedra fundamental do nascimento de Portugal e do sentimento de unidade cultural do povo.
É possível imaginar os antigos reis cavalgando pelas ruas estreitas, passando pelas portas da muralha e em frente à Sé Antiga – uma magnífica catedral do século XII – que, de tão intacta na sua planta original, chega a destoar dos prédios ao redor. Dá para sentir o cheiro da lenha aquecendo os casarios antigos, os estalos do fogo se misturando ao som das pisadas de suas cavalarias e de seus habitantes percorrendo a cidade, lembrando-se do pânico da época dos mouros e do relativo sentimento de segurança de um reino recém-formado. Tudo isso ao som de cantos gregorianos que ecoam pelas igrejas, marcando a presença da Santa Sé como juiza suprema de tudo e de todos em tempos tão escuros quanto as suas muralhas e as armaduras de seus cavaleiros.
Mas, além de ter dado luz ao criador do país, tido por todos como herói guerreiro, como ídolo na sua bravura e retrato de tempos em que a espada pesava muito mais do que a pena, Coimbra também foi palco de uma das mais fortes tragédias românticas, cantada por Camões nos Lusíadas. Por volta do século XIV, a cidade deu luz a Pedro I (o português, que nada tem a ver com o D. Pedro I do Brasil). O sei pai escolhera uma noiva espanhola para ele, que trouxe consigo para a cidade uma dama de companhia de rara beleza: Inês de Castro. Pedro casou-se com a noiva prometida – mas isso não o impediu de se envolver com Inês em um amor que se tornou lendário. Um amor que se iniciou no adultério mas que, com a viuvez de Pedro, foi se consolidando como legítimo aos olhos fechados da nobreza.
Enquanto isso, o reino de Leão e Castelo, na Espanha, entrava em uma perigosa crise dinástica. Considerando que Pedro I era primo dos reis da região, ele estaria, pois, apto a entrar na briga sucessória- tendo sido fortemente incentivado pelos epanhóis irmãos de Inês de Castro.
Em paralelo, a sua paixão proibida já tinha rendido 4 filhos bastardos – despertando o medo do seu pai, Afonso IV, e da nobreza, de que eles acabassem brigando pelo trono português em um futuro próximo.
Por medo de uma guerra com os espanhóis ou de uma guerra sucessória interna – ou por ambos – e por ordem do seu pai, o Rei Afonso IV, 3 dos mais influentes nobres invadiram o mosteiro onde Inês de Castro dormia e a assassinaram enquanto Pedro I estava fora da cidade. O fim tão prematuro do romance mudou completamente a vida do príncipe, que virou rei pouco tempo depois, com a morte de seu pai.
Pedro coroou Inês mesmo após esta ter morrido e fez com que a nobreza ajoelhasse-se perante o seu cadáver e beijasse as suas mãos. Ele foi, em seguida, atrás dos assassinos, tendo encontrado 2 deles e os matado após seguidas sessões de tortura feitas apenas para o seu prazer.
Dizem, aiás, que após o assassinato da amada, Dom Pedro I se transformou em um tirano sádico, que tinha como um dos principais prazeres assistir ao sofrimento lento e severo dos seus inimigos.
Morreu infeliz anos mais tarde, e mandou sepularem-no ao lado de Inês de Castro, no Mosteiro de Alcobaça (ao lado de Coimbra). Os túmulos são belíssimas obras de arte, inaugurando a arte sepulcral portuguesa. O destaque fica para os detalhes do de Inês de Castro, que conta a história do juízo final em alusão à sua própria.
O prédio é um abrigo estranho para um amor proibido e extra-conjugal que tanto chocou a sociedade da época. Foi inaugurado no ano de 1178 pelos monges do Cister e é a primeiro construção realmente gótica de Portugal. Tem daquelas belezas assustadoras, em tons de cinza desbotado e com luz penetrando entre discretos vitrais e janelas, iluminando um interior de proporções colossais. O mais estranho é que os monges faziam voto de silêncio, discutindo apenas assunto religiosos e apenas no parlatório do mosteiro que, devido à sua arquitetura, faz com que qualquer sussurro seja ouvido, ironicamente, a metros de distância.
Todo o mosteiro é aberto a visitação – dos claustros à cozinha, mostrando, mesmo que em cores pálidas, o cotidiano de quase um milênio atrás. Não foi sem motivo que o Mosteiro de Alcobaça foi considerado uma das Sete Maravilhas de Portugal.
De volta a Coimbra, entre o nascimento do pai do país e a morte da amante do rei, foi fundada, no século XIII, pelo então rei Dom Diniz, a Univiersidade de Coimbra. É incrível imaginar a visão de um homem que, em plena idade das trevas, decide mudar o curso da história e permitir que conhecimento se espalhasse pelo seu reino, levando-o a um futuro mais próspero. Claro – uma visão presa ainda à relação entre um rei onipotente e súditos obedientes e fiéis, pois regras não faltavam.
Uma das primeiras medidas de Dom Diniz foi proibir que qualquer um que não fosse estudante habitasse na parte alta da cidade, região da Universidade e acima da magnífica Porta de Almedina.
Os sinos tocavam não apenas nas horas das aulas, mas também entre as 18:00 e 7:00, horário destinado exclusivamente para descanso e estudo.
Qualquer estudante que fosse pego nas ruas entre esses horários era imediatamente levado pela polícia para a prisão acadêmica.
E, fora estas regras, a universidade conta com uma série de tradições datadas de séculos atrás – parte delas que pôde ser contada pelo Tio Alberto que, ele próprio, havia estudado lá.
Mas, enfim, estava na hora de irmos.
O último lugar que fomos visitar em Coimbra foi o Penedo da Saudade – um recanto perdido na parte alta da cidade, onde os estudantes já formados voltavam para deixar lápides com poemas cantando as saudades que sentiam de lá.
Depois de tantas guerras, conspirações, sofrimento e leis, restou, claro, a nostalgia.
Sair de Coimbra e voltar para Aveiro – sempre cruzando as pequenas aldeias da Bairrada – foi como deixar para trás quase um milênio de história densa, misturando a leveza de conhecer, ao vivo, parte tão importante da formação do que, cruzando oceanos, viria a ser o nosso próprio povo, ao peso de tantos anos e fatos concentrados em um local menor do que uma pequena cidade interiorana brasileira.
Coimbra, como Portugal, é prova viva de que uma história de porte não tem, necessariamente, nenhuma relação com uma amplitude geográfica. Ou seja, de que tamanho não é documento.
Cada dia que passa, em cada nova cidade, fica mais difícil compreender a alma portuguesa. Por um lado, existe o aspecto meio triste, do fado, das aldeias, das viúvas e das praças vazias; mas existe também o extremo oposto: as casas coloridas enfileiradas, apinhadas em morros e entrecortadas por ruas minúsculas.
Porto é este lado. A própria chegada de trem, cortando o Rio Douro, já deixa a mostra uma cidade única, grande mas ainda meio parada no tempo. A belíssima estação de trem abre caminho para prédios dos séculos XVIII e XIX, no estilo tão familiar a quem é brasileiro – e principalmente baiano. Estamos no centro da cidade, no topo da parte alta.
Mais adiante, a maravilhosa praça da Sé – um ambiente que mescla muralhas e torres e uma catedral dos mais variados períodos – do século XII em diante. Dal, a cidade era controlada. As casas mais abastadas, onde viviam os nobres, ficavam junto à colina e próximo do local onde se decidia a vida local. Da colina, descemos pelas laeiras mais íngremes que já vi na vida, passando por casarões de 3, 4, 5 andares e que, um dia, certamente foram imponentes. Olhando para a direito, uma senhora estende as suas roupas para o lado de fora, pendurando toalhas e camisetas para secar enquanto conversa com o senhor na casa da frente, que parecia não fazer nada.
Durante todo o caminho entre a cidade alta e a baixa vimos cenas como essa se repetindo – e era chocante imaginar como o mesmo acontecia séculos antes. A cada passo, aliás, parecia que essa repetição fazia a vista ficar mais bonita – até que avistamos o Douro.
Não sei, verdade seja dita, o motivo pelo qual o rio ganhou este nome – mas, ao ver o sol fazer brilhar as suas águas, que pareciam ocupar um vale repleto de casas coloridas apoiadas umas nas outras, não ficou difícil arriscar um palpite.
Enquanto os olhos bebiam a beleza do rio, fomos chegando à parte baixa da cidade, na Ribeira. Lá, os barcos que por séculos foram utilizados para transportar barris de vinho do Porto descansavam, apenas balançando ao ritmo das águas. Escolhemos um pequeno bar com cadeiras na calçada e sentamos para tomar uma cerveja e petiscar um pouco – apenas para repor necessárias energias.
Atravessamos a ponte e chegamos a Vila Nova de Gaia, na margem oposta, onde ficam as caves de degustação. E por lá ficamos, inde de um lado a outro, voltando pela ponte, tirando fotos perto das muralhas medievais que separavam o Porto das desprotegidas zonas abertas. Pisamos pedras que haviam sido pisadas por quase um milênio, vimos incontáveis casarios e, finalmente, subimos de volta para a parte alta – de bondinho, desta vez, pois os pés já davam claros sinais de exaustão.
Estava na hora de voltar para Aveiro. No caminho de volta à cidade alta e rumo à estação, não pudemos deixar de notar grupos de idosos, dos que usam com boinas tipicamente portuguesas, a jogarem conversa fora com aquele tom de seriedade que apenas os mais vividos têm, espalhados por bancos em uma das praças principais.
Mas a hora chegou e o trem não nos esperaria. À noite, tínhamos uma ceia de Natal na casa dos tios da Ana Lia, em uma das aldeias da redondeza – Levira.
Atravessamos a fronteira de carro, por volta do meio dia. Mais alguns quilômetros e estávamos em plena Salamanca, um dos principais pontos culturais e históricos d Europa. Com prédios de mais de mil anos de história e uma arquitetura única, Salamanca é uma das cidades mais maravilhosas da espanha.
Antes de admirá-la, no entanto, comer se fazia imprescindível: sentamos em um café na praça principal, onde nos cercavam edifícios medievais do governo e, ignorando a história que cismava em nos chamar, concentramo-nos em tradicionais tapas espanholas – ou omeletes, como são conhecidas no Brasil.
A Espanha é diferente de Portugal – apesar de serem vizinhas, as culturas fazem os países parecerem pertencer a hemisférios diferentes. Enquanto em Portugal as ruas ficam permanentemente vazias – ao menos durante o inverno – era chocante a quantiade de pessoas que perambulavam pela praça. Bebês de colo, adolescentes, jovens, velhos de bengala – todos pareciam querer aproveitar tudo o que os raios de sol podiam oferecer. todos faziam uma só massa de agito organizado, de badalação, de vida pulsante mesmo em chãos tão repletos de fantasmas.
Minutos depois e pronto: estávamos preparados para conhecer a cidade. Erramos apenas em uma coisa: era domingo, dia 23 de dezembro e tudo estava fechado. Resignados e com o consolo de que haveriam outras cidades espanholas, passamos boa parte do dia perambulando pelas ruas estreitas e por entre casas de pedra. Passamos pela Casa de Conchas, erguida por um nobre para a sua amada; pela universidade, uma das mais antigas da Europa; e pelas catedrais nova e velha – sendo que a nova datava-se do século XVI.
História, história, história. Dava para sentir nas pedras que desenhavam o chão as pisadas dos habitantes, dos fantasmas de um passado que envolvia nobreza, guerras, invasores mouros que vieram e que saíram. Chegamos a subir em uma das torres – o único ponto turístico aberto da cidade, de onde pudemos avistar toda a sua beleza. Da torre, vimos partes internas das catedrais, pátios espaçosos e nos guiamos por escadarias íngremes e tortuosas.
O passado fica mais próximo quando é visto assim, tão “tactilmente”.
Com o dia por terminar, voltamos ao carro e rumamos para Ciudad Rodrigo – uma pequena vila medieval cercada por uma muralha de centenas de anos. De cima dos burgos, dava para se ver toda a região e para imaginar como era a vida de então.
Até que a noite foi caindo e, entre tantas imagens que se formavam, chegou a hora de partir de volta a Portugal.
Aveiro. Ilhavo. Casa.
Até o dia seguinte, dia de conhecer a cidade do Porto.
Uma velha – daquelas que parecem ser velhas há séculos – sentava-se sob o sol. Vestia preto de cima abaixo, em luto eterno por um marido que parecia ter morrido décadas atrás. Do seu lado, uma cadeira vazia á fazia companhia, enquanto as toruosas e apertadas ruas trilhavam seus caminhos por entre casas meio abandonadas, algo lúgubres e bucólicas.
Não lembro ao certo o nome da aldeia descrita acima – mas isso pouco importa. Pelo que contaram, uma infinidade de pequenas aldeias portuguesas descrevem exatamente o mesmo cenário. E, por mais triste que a velha parecia, perdida entre pensamentos de um tempo que há tanto se foi, ela compunha uma das paisagens mais inesquecíveis e belas do velho mundo.
Quando olhei a foto, tirada praticamente por um golpe de sorte, passei as próximas horas imaginando como seria a vida naquele lugar onde o tempo parecia não existir, onde tudo parecia estar em uma eterna pausa.
Voltamos, pois, ao carro – e por lá fomos triando outros caminhos, por outras aldeias. Paisagens maravilhosas foram se desacortinando perabte os olhos, banhadas por um céu de azul cintilante e cortada por um frio de início de inverno.
Passamos por moinhos antigos e chegamos à Floresta do Buçaco – “a mais frondosa de toda a Europa”. Mas a floresta importava pouco ali – ela parecia existir apenas como coadjuvante, para deixar mais belo o Castelo do Buçaco, erguido pelo último rei de Portugal no sítio onde as tropas napoleônicas foram finalmente expulsas da terrinha.
Hoje, é um lindo hotel, todo restaurado e mostrando aos hóspedes como era a vida da realeza na época. Tomamos um café, tiramos fotos e caminhamos pelo tempo.
Antes ainda de voltar para casa, demos um pulo nas praias da região de Aveiro. Ondas brancas, meio agitadas mas com uma certa placidez, lambiam as areias claras em um fim de tarde esplendoroso. Fomos em duas das praias, ambas com um visual semelhante. Praias no inverno são sempre meio curiosas, com um cheiro de sal e lenha queimada, portando uma beleza exótica para quem nasceu no Brasil.
O exótico permaneceu ainda quando passamos, de carro, pela vila onde habitavam os pescadores (Costa Nova): casas homogeneamente listadas, formando um padrão arquitetônico claro, alegre, cheio de vida – de certa maneira destoante do restante do cenário. Uma bela forma de se encerrar o dia…
Ao voltar para casa, passamos pela noite em Aveiro, banhada por uma lua que deixava a ria, os seus barcos e os casarões iluminados sob toos os aspectos.
Era apenas o início de uma viagem que ainda teria Espanha e Marrocos à nossa frente.
Chegamos em Portugal no dia 21 de dezembro de 2007. Para Ana Lia, era algo como a vigésima primeira ou segunda vez que ia ao país – seus pais moravam por lá há anos e, mesmo antes de irem, as constantes visitas à família que por lá ficou fizeram do país uma extensão de casa.
Para mim, todavia, era a primeira visita. Não nego que o péssimo serviço da TAP (linha aérea portuguesa), com direito até a barraco armado pela aeromoça, me deixou com o pé para trás com relação à hospitalidade do povo português. Mas, graças aos céus, era apenas um receio besta, que se mostrou completamente incorreto.
Ao chegarmos, fomos recepcionados pelos tios Alberto e Lia – meus sogros, que prontamente nos levaram para comer um típico bacalhau português com batatas ao murro. O restaurante era uma atração turística por si só. Não lembro exatamente em que aldeia ele ficava – mas sei que era nos arredores de Aveiro – nosso porto durante toda a viagem. Era, no entanto, um local meio isolado, frequentado pelos próprios aldeões. O prato era único e compartilhado por uma mesa em que sentavam-se todos de forma comunitária. Entre risos, um atendimento fantástico e um bacalhau como nunca comi na vida, tive a melhor impressão que se pode ter de um país. Ao término, fomos para casa, na pequena cidade de Ílhavo.
Haveria um jantar à noite para cerca de 17 ou 18 familiares, e o restante da tarde girou em torno do fato. O prato, outra iguaria da culinária lusitana: um leitão inteiro, daqueles de desenho animado, com direito a maçã na boca e tudo, temperado e assado por horas a fio. Servido após um ritual gastronômico que incluiu sopa de cenoura e barquinhos de bacalhau, foi uma as noites de maior fartura que já tive.
Mas o que mais impressionou foi a simpatia do povo. Apesar de ser novo na família, fui tratado como velho conhecido, recebendo as boas vindas sob calorosos abraços.
Uma bela extensão de família do além-mar – e um senhor primeiro dia de viagem.
A noite era tão estrelada que parecia que estávamos flutuando. Incontáveis constelações, do Cruzeiro do Sul à de Escorpião, misturavam-se aos brilhos de Jupiter e ao leite derramado da Via Láctea, desenhando com abundantes onirismos pensamentos que fluíam, absolutos, pelas mentes de todos que lá estavam.
Ao tirar os olhos do céu e olhar para a frente, víamos o frio cair por sobre uma paisagem quase sertaneja, com galhos retorcidos e um interminável tapete bege sob os nossos pés, entrecortado pelo aroma inesquecível das savanas africanas.
A pouco mais de 30 metros, como a mente teimava em lembrar, havíamos cruzado com um grupo de leões. “Estão descansando e com a barriga cheia”, avisou o guia do Safari: tinham devorado uma girafa na noite anterior. De fato, as suas preguiçosas barrigas pareciam prendê-los ao chão, fazendo os reis da selva mais parecerem gatinhos domésticos.
Mas, enquanto a noite reinava, ouvíamos barulhos distantes ecoarem. Grilos e insetos pareciam discutir ferozmente; pássaros noturnos avisavam que estavam com fome; ruídos de animais estranhos entrecortavam as estrelas e mesmo rugidos distantes de outros grupos de leões – que pareciam, estes sim, estar em plena caça – garantiam que as estrelas não eram as únicas que ali estavam.
Esta foi a nossa última noite em uma das viagens mais maravilhosas que já fizemos. A partir dali, fomos para o hotel, arrumamos as malas e partimos rumo a Johannesburg, onde, no dia seguinte, embarcamos para a nossa vida cotidiana, em São Paulo.
Chegamos na Africa no dia 31 de agosto de 2007 – aniversário da Ana Lia. Foram dois vôos: um de São Paulo para Johannesburg, e outro de lá para Port Elisabeth. Uma cidade pequena, mas muito charmosa, na ponta da famosa Garden Route, um dos mais belos roteiros turísticos da África do Sul.
Port Elisabeth foi o nosso primeiro choque com a África. Ao partir para um local exótico como esse, nós, ignorantes do mundo, imaginamos encontrar um país negro, riquíssimo culturalmente e repleto de música por todos os cantos. Em realidade, Port Elisabeth mais parecia uma Holanda fora de lugar.
É fato que as suas areias brancas, banhadas pelas incomparáveis águas do Índico, davam o tom de paraíso ao local. Mas a população como um todo era branca-transparente, que nitidamente dominou e destroçou a cultura negra da região. Para entender melhor esse ponto, faz-se importante um pouco de história.
Antes da colonização, a África do Sul tinha aproximadamente 9 nações tribais, que iam desde os Bushmen, ao sul, até os famosos e temíveis Zulus, ao nordeste. Inicialmente, os portugueses apareceram, com Bartolomeu Dias, tendo a região como caminho para a tão buscada rota para as Índias (viagem feita posteriormente por Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral). Os portugueses, no entanto, desapareceram de lá e deixaram a sua cultura impressa, timidamente, em alguns nomes de bairros e ruas.
Pouco depois, tanto holandeses quanto ingleses apareceram para colonizar a região. Os holandeses, trazidos pela Companhia das Índias, foram ocupando boa parte do centro da África do Sul. Com o final da Companhia das Índias, eles se declararam independentes do povo holandês e se dominaram Bôeres (ou Afrikaners). Desenvolveram um novo idioma a partir do alemão e fundaram uma cultura que não era nem européia e nem africana. Os ingleses dominaram o litoral e, aos poucos, foram consolidando o seu poder. Lá pelo século 19, uma guerra civil se travou entre ingleses e afrikaners (a Guerra dos Bôeres) – como toda luta, gerando miséria, fome e um interminável rol de desgraças. Parece incrível, mas a extrema minoria formada pela soma das duas únicas culturas brancas da região brigavam pelo poder, enquanto os povos negros permaneciam à margem.
Os ingleses venceram e, assim, a África do Sul começou a se formar. Uma cultura de racismo, de Apartheid, reinou até meados da década de 90 – e, por conta disso, o país passou anos em um isolamento cultural do mundo maior do que o seu isolamento geográfico. O Apartheid acabou e o país começou a se reestabelecer no mundo, mas já com uma infra-estrutura turística invejável reforçando os contornos da beleza natural que esbanja, sem medo algum da inveja alheia.
Na viagem que fizemos de carro, de Port Elisabeth até Knysna, depois até Oldtshoorn e, finalmente, até Cape Town, foi possível perceber todas as heranças dessa história.
O isolamento dos afrikaners, que se situam em cidades mais distantes dos centros comerciais; a riqueza dos ingleses, que passeiam pela vida na cidade do cabo – provavelmente a mais bela do planeta; a pobreza indignada dos povos negros mesclada a uma estranha porém inconteste alegria sempre presente nos seus sorrisos; o total isolamento cultural de um país distante do mundo, mas vizinho de outros países dominados pela miséria extrema, por guerras civis e pelo que há de mais cru e perverso na personalidade humana.
O caldeirão cultural renovado com o fim do Apartheid desenha um país novo – e dá para sentir isso ao caminhar pelas suas ruas. Mas, de alguma maneira, a cultura humana parece tão pequena e ridícula quando comparada às montanhas, à águas claras, às cachoeiras e ao rugir dos animais que, de fato, não foi nela que acabamos por nos prender.
Voltando ao nosso roteiro, vimos praias atrás de praias de Port Elisabeth até Knysna. Passamos por Jeffrey’s Bay, Victoria Bay, Plettenberg. Em cada estrada, cortamos montanhas, acenamos para babuínos e chegamos a cenários cinematográficos, onde o céu mais azul do mundo fazia brilhar o mar.
Em Knysna, decidmos partir para uma outra rota, ainda no caminho até Cape Town – deixamos a Garden Route e pegamos a Klein Karoo – afastando-nos do litoral e rumando às montanhas. Mais beleza pela frente – só que, ao invés de azul, essa era bege, cor da terra que se faz tão presente em todo o continente africano. A cidade de destino era Oldtshoorn – quase impronunciável. Foi lá que, há alguns anos, os afrikaners iniciaram a criação de avestruzes. E esse é o tema dominante: a cada passo, vê-se um grupo de avestruzes – aves estranhas, que, por um lado, conseguem partir o crânio de um ser humano com um coice, mas, por outro, “casam-se” entre si e se mantêm tão fiéis ao parceiro que, quando um morre, o outro morre de tristeza logo em seguida.
Em Oldtshoorn, resolvemos nos hospedar em um hotel diferente – um resort chamado Buffelsdrif. Foi com muito entusiasmo que descobrimos estar no paraíso. O nosso “quarto” era, na realidade, uma cabana – mas com um luxo incrível! Tinha ar condicionado, uma banheira imensa, cama king size – e tudo com vista para um lago belíssimo onde habitava uma família de hipopótamos.
Energizados pelo conforto, saímos e fomos conhecer toda região, entrando em fazendas de avestruz, nas cavernas Kango e até mesmo em um parque onde pudemos mergulhar (dentro de uma jaula, claro) em um lago repleto de crocodilos.
Mas chegou a hora de sair – e pegamos o nosso rumo para Cape Town. No caminho, passamos pela rota dos vinhos, onde fomos parando e degustando vinhos sensacionais em diversas cidadezinhas que pintavam a paisagem.
Dizem que Cape Town é a mistura de um Rio de Janeiro sem as favelas dos morros com trechos do litoral de Salvador. E, de fato, é. Uma cidade belíssima, extremamente bem cuidada, que faz os olhos revezarem entre o azul do mar e a intimidação das montanhas – principalmente a Table Mountain, uma gigantesca rocha em formato de mesa que reina no meio da cidade.
A primeira coisa que fizemos foi ir até o cabo da boa esperança. Dirigindo, paramos algumas vezes para ver grupos de baleias que, volta e meia, apareciam para dançar no mar. Mas choque maior foi parar em Boulder’s Beach, uma praia no caminho do cabo que tem como principal atração uma colônia com cerca de 3.000 pingüins! Todos ao nosso lado, caminhando, caindo, mergulhando. Era época de cortejo, então dava para ouvir o canto dos machos na busca pelas suas fêmeas. Ficamos um tempo ali, admirando aqueles bichos que só imaginamos ver em documentários da TV. E depois pegamos o nosso rumo.
O caminho em si para o Cabo da Boa Esperança é das coisas mais maravilhosas do planeta. É possível sentir que ali, a mais alguns quilômetros, toda a vida que pulsa nos solos africanos chega ao fim. É possível imaginar que ali é o fim do mundo, restando apenas a Antártica a alguns 6.000 quilômetros à frente.
E basta chegar lá para constatar. Subimos em um penhasco gigantesco, onde fica a célebre placa com as setas e distâncias do Polo Sul, Rio de Janeiro, Paris, Nova York. “Aqui é o fim do mundo”, ecoavam os nossos pensamentos. Do penhasco, avistamos mares multicoloridos, pássaros pescadores, sentimos o ar frio que devia vir da Antártica. Passamos algumas horas bebendo pura beleza e segurando as lágrimas que brigavam para sair.
Quando as vistas já estavam doloridas de tanto serem acariciadas, voltamos para Cape Town. Dormimos, acordamos, passeamos mais. Subimos na Table Mountain para constatar a beleza da cidade, sentimo-nos pequenos perto do mundo. E aproveitamos a cidade e tudo o que ela tinha a oferecer.
O tempo passou e, finalmente, chegou a hora de irmos para o destino final: o safari no famoso Kruger Park.
Nos despedimos do carro, pegamos um avião rumo ao extremo nordeste do país e chegamos à paisagem sertaneja. E, lá, entre safaris de jipe e um exótico safari montado em elefantes, vimos de tudo: zebras, rinocerontes, gnus, leões, impalas, macacos, girafas. Vimos a vida conviver, presa e predador, lado a lado; sentimos a arrogância dos leões, o susto eterno em que viviam os veados e, mais uma vez, a insignificância que tinha o ser humano no meio daquele cenário.
E assim coroamos o fim da nossa viagem – 11 dias passeando por um país de contrastes e de belezas tão imponentes que conseguimos sentir a vida correndo pelos nossos pés, atravessando os nossos pulmões, batendo junto com os nossos corações e gerando, no vôo de volta, imagens tão marcantes que os olhos passaram todo o vôo abertos, temerosos em esquecer de tudo que tiveram a oportunidade de fotografar.
Essa foi a África do Sul.
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Foi, de fato, apenas um fim-de-semana. Estávamos de bobeira, pensando em coisas diferentes para fazer quando, de repente, um de nós (e nem lembro quem) sugeriu passarmos um fim-de-semana em Buenos Aires.
Já tínhamos visitado a capital portenha antes, de forma que as lembranças não estavam assim tão adormecidas.
Mas, por algum motivo qualquer, elas também não tinham, nem de longe, o grau de poesia que pareceram ter desta vez.
Chegamos ao hotel na noite da sexta-feira – um daqueles hotéis em prédios de estilo parisiense, bonitos, que respiravam um tipo de nostalgia rara de se sentir. Nosso primeiro choque foi ao olhar pela janela: no prédio à nossa frente, provavelmente no mesmo andar, escancarava-se uma imensa janela que deixava à mostra um casal rodopiando pelo salão, ao som de Carlos Gardel, em uma escola de dança. Cena de filme.
Passamos alguns minutos olhando a cena, imaginando os passos, sentindo a música. Mas estava tarde e nós, exaustos, nos entregamos ao sono.
O dia seguinte amanheceu ainda mais nostálgico – o sol passeava com nuvens brancas, calmas, que sopravam a brisa fria do inverno portenho. O primeiro lugar que visitamos foi Palermo, um dos bairros artísticos da capital argentina – uma espécie de “Vila Madalena” deles.
Era cedo em pleno sábado – e poucos lugares estavam abertos. De qualquer maneira, entramos em algumas lojinhas, tomamos um café e batemos perna. Andamos pelas ruas de lá por entre sorrisos e carros antigos – igualmente nostálgicos – e começamos a entrar no clima da cidade.
A pé, chegamos na Calle Florida. Verdade seja dita, aquele não foi dos lugares mais bonitos do planeta – era uma espécie de “25 de Março” onde se falava espanhol. Mas conseguimos achar um restaurante aconchegante na região e almoçamos, recuperando a energia para a tarde.
Do restaurante, pegamos outro taxi e fomos para a Recoleta. Entre belíssimas praças e ladeiras que pareciam descansar os pés a cada passo, de tão charmosas, ziguezagueamos por pequenos bares, lojinhas, cafés. Petiscamos, tomamos vinhos a cada esquina e – claro – deixamos o bom humor nos levar até o próximo destino.
Que não podia ficar de fora: depois de um bom banho que nos deu as boas vindas à noite, fomos até Puerto Madera.
Buenos Aires é assim… uma cidade perdida nas américas, com ares de Europa, bem cuidada, aconchegante, mas que ainda assim exala uma energia romântica extremamente latina, que deve ter sido matéria prima para o primeiro tango composto.
Puerto Madera é o lado europeu dessa frase. Um porto restaurado, preparado para o turismo, repleto de restaurantes maravilhosos, de bares convidativos, de beleza que enche os olhos. Passamos a noite por lá, decidindo a qual restaurante ir (e a decisão em si pouco importava, já que todos pareciam ser maravilhosos).
Depois de comer feito reis no La Caballeriza (e pagar feito mendigos, sendo a capital argentina uma das cidades mais baratas que já visitamos), o cansaço nos carregou até o hotel. Enquanto o casal continuava dançando tango no prédio ao lado, nos entregamos – mais uma vez – ao sono.
Na manhã seguinte, fomos ao centro da alma portenha: o Caminito, onde nasceu o tango. Esse talvez tenha sido dos lugares mais poéticos e fortes que já vimos: cores, muitas cortes, se misturavam ao som de tangos que ecoavam pelos alto-falantes, dando margem a casais dançando pelas praças entre aromas persistentes de café e chocolate quente. Ao passear pelas ruelas do Caminito, fomos sentindo – em placas, móveis e nos sorrisos cansados dos velhos – um certo estado puro de vida
.
Provavelmente passamos algumas poucas horas lá – mas foi como se tivéssemos morado por um tempo, tamanha a força do bairro. Saímos ainda em estado de suspensão, meio flutuantes, e fomos até a feirinha de San Telmo.
Pequenas lojinhas convidativas, com aquelas lembrancinhas e souvenirs que só se acham em lugares específicos, marcaram o começo da tarde do domingo.
Até que voltamos a Puerto Madera, para sentir o dia clareando o rio, os restaurantes, as pessoas. Dessa vez, sentamos em uma mesa no maravilhoso Las Lilas e, ao olhar a paisagem, nos despedimos de Buenos Aires com uma garrafa de champagne e muita carne de primeiríssima linha.
A partir dali, paramos em uma loja de vinhos, compramos garrafas e mais garrafas e fomos arrumar as nossas malas. Estávamos voltando para casa.
Já no aeroporto, cada hora de atraso no vôo nos fazia sentir, ironicamente, mais próximos do Brasil. Ficamos remoendo os pensamentos, brincando com as lembranças, ouvindo a música, vendo o casal dançar no prédio vizinho.
Essa foi uma das viagens mais impulsivas que já fizemos: era um fim-de-semana qualquer, em que simplesmente estávamos sem ter o que fazer; não havia feriado e nem nenhuma data comemorativa; e, por ser uma cidade tão próxima e com uma moeda tão desvalorizada, o custo foi uma piada.
Mas, ainda assim, o fim-de-semana em Buenos Aires deve ter sido das viagens mais marcantes e ímpares que já fizemos.
Ainda hoje, meses depois, nos pegamos arregalando os olhos ao ouvir um tango colocado acidentalmente no iPod, sendo atropelados pela nostalgia que só Buenos Aires tem.
Principalmente logo que se volta de lá.
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